Elis Regina - FASCINAÇÃO

sábado, 2 de novembro de 2013


RECORDANDO O QUE ERA SIMPLES

A gente acordava aos sábados com o barulho dos carros de boi. O ranger das rodas era tão familiar, tão nosso, que nunca incomodava.
Na verdade, os carros de boi faz parte da nossa vida, de nosso bem estar, do nosso lazer de final de semana. Tínhamos aulas aos sábados. E voltávamos, engolíamos o almoço, trocávamos a saia plissada da farda por outra e, ainda com a blusa branca, saíamos a pongar nos mesmos. Era uma das melhores diversões que tínhamos e era sempre acompanhada de gargalhadas felizes. Agíamos, em geral, em turma. Pequenas turmas. Adolescentes que se sentiam livres, felizes, realizadas apenas por poderem pongar naqueles veículos de madeira puxados por uma junta de bois.
Na simplicidade do nosso existir, da nossa pequena Caetité, ter esse direito, essa oportunidade, era algo de extremo valor. Não sei a que comparar o prazer daqueles momentos. Não vejo nada tão divertido e verdadeiro nos dias atuais. Éramos realizados com as opções que a vida nos dava de construirmos nossas próprias diversões.
Subir em árvores, construir trapézios em seus galhos, tomar banho de rio, visitar fazendas dos arredores, dançar nas festinhas da casa de amigos... jogar buraco, dominó, basquete ou futebol... era o paraiso!
Cadernos de confidencias... quem se lembra? “Como é seu nome?” “Você tem namorado?” “Deixe uma frase...” “ Você já beijou?” Pois é, perguntas inocentes, simples assim.
Cadernos de segredos... A gente escrevia e depois dobrava e colava a página em triângulo (como a vela dos barquinhos de papel) e escrevia fora determinando a data em que deveria ser aberto.
Caderno de músicas, caderno de poesias. A gente copiava uma letra, um poema e deixava uma dedicatória no final: “Para fulana (o), como prova de amizade...”
Fotografias: Com dedicatórias: “Para teus olhos, uma foto. Para teu coração, uma lembrança.”.
Saudades de um tempo em que os sonhos eram realizáveis, lindos e cheios de cores mágicas! De pessoas que conviviam conosco e dividiam os sorrisos e as lágrimas com a pureza de quem ainda não conhecia o mundo e suas ciladas.
Saudade de um tempo em que as enxurradas carregavam apenas os nossos barquinhos de papel e deixavam os bancos de areia para brincarmos de triângulo depois. E em que haviam tanajuras e mutucas. E que, depois de brincarmos bastante, voltávamos para casa onde a comida estava pronta e a cama arrumada.
Saudade de um tempo em que namorávamos na praça, nos bancos do jardim, e que, mais tarde, podíamos ouvir as serenatas de radiola de pilha e LPs de cantores românticos.
E se acordar hoje com o barulho da cidade grande se tornou hábito, é porque somos mutantes. Adaptamo-nos aos “modus vivendi” e criamos um mundo nosso nesse ambiente de todos. Mas sabemos que, se fecharmos os olhos, nos concentrarmos, ainda ouviremos o ranger das rodas dos carros de bois! Ainda sentiremos nossa respiração ofegante por correr atrás deles para pongarmos... Em um, em mais um, em outro e outros... E assim temos a certeza de que escrevemos a nossa própria história com todas as cores de uma época simples e maravilhosa!

Luzmar Oliveira


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