RECORDANDO O QUE ERA SIMPLES
A gente acordava aos sábados com o
barulho dos carros de boi. O ranger das rodas era tão familiar, tão nosso, que
nunca incomodava.
Na verdade, os carros de boi faz
parte da nossa vida, de nosso bem estar, do nosso lazer de final de semana.
Tínhamos aulas aos sábados. E voltávamos, engolíamos o almoço, trocávamos a
saia plissada da farda por outra e, ainda com a blusa branca, saíamos a pongar
nos mesmos. Era uma das melhores diversões que tínhamos e era sempre
acompanhada de gargalhadas felizes. Agíamos, em geral, em turma. Pequenas
turmas. Adolescentes que se sentiam livres, felizes, realizadas apenas por
poderem pongar naqueles veículos de madeira puxados por uma junta de bois.
Na simplicidade do nosso existir, da
nossa pequena Caetité, ter esse direito, essa oportunidade, era algo de extremo
valor. Não sei a que comparar o prazer daqueles momentos. Não vejo nada tão
divertido e verdadeiro nos dias atuais. Éramos realizados com as opções que a
vida nos dava de construirmos nossas próprias diversões.
Subir em árvores, construir trapézios
em seus galhos, tomar banho de rio, visitar fazendas dos arredores, dançar nas
festinhas da casa de amigos... jogar buraco, dominó, basquete ou futebol... era
o paraiso!
Cadernos de confidencias... quem se
lembra? “Como é seu nome?” “Você tem namorado?” “Deixe uma frase...” “ Você já beijou?”
Pois é, perguntas inocentes, simples assim.
Cadernos de segredos... A gente escrevia
e depois dobrava e colava a página em triângulo (como a vela dos barquinhos de
papel) e escrevia fora determinando a data em que deveria ser aberto.
Caderno de músicas, caderno de
poesias. A gente copiava uma letra, um poema e deixava uma dedicatória no
final: “Para fulana (o), como prova de amizade...”
Fotografias: Com dedicatórias: “Para
teus olhos, uma foto. Para teu coração, uma lembrança.”.
Saudades de um tempo em que os
sonhos eram realizáveis, lindos e cheios de cores mágicas! De pessoas que conviviam
conosco e dividiam os sorrisos e as lágrimas com a pureza de quem ainda não
conhecia o mundo e suas ciladas.
Saudade de um tempo em que as
enxurradas carregavam apenas os nossos barquinhos de papel e deixavam os bancos
de areia para brincarmos de triângulo depois. E em que haviam tanajuras e
mutucas. E que, depois de brincarmos bastante, voltávamos para casa onde a
comida estava pronta e a cama arrumada.
Saudade de um tempo em que
namorávamos na praça, nos bancos do jardim, e que, mais tarde, podíamos ouvir
as serenatas de radiola de pilha e LPs de cantores românticos.
E se acordar hoje com o barulho da
cidade grande se tornou hábito, é porque somos mutantes. Adaptamo-nos aos “modus
vivendi” e criamos um mundo nosso nesse ambiente de todos. Mas sabemos que, se
fecharmos os olhos, nos concentrarmos, ainda ouviremos o ranger das rodas dos
carros de bois! Ainda sentiremos nossa respiração ofegante por correr atrás deles
para pongarmos... Em um, em mais um, em outro e outros... E assim temos a certeza
de que escrevemos a nossa própria história com todas as cores de uma época
simples e maravilhosa!
Luzmar Oliveira
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