SAUDADE É A LEMBRANÇA DO QUE JÁ FOMOS
Naqueles dias, quase
final de ano, as coisas apertavam para nós em Caetité. Tínhamos que estudar
dobrado as matérias nas quais estávamos mais fracos, carentes de boas notas. Ou
passávamos ou íamos para a tal “segunda época” e ai, adeus férias! Adeus minha
chegadinha em São Paulo, minha esticadinha em Caculé em casa de Oneide. Então caprichava mais e mais para não perder as
oportunidades de curtir essas alegrias.
Havia uma crença de
que as lagartixas respondiam nossas perguntas, e ai dizíamos: “Lagartixa, vou
passar em matemática?” E ela balançava a cabeça pra cima e pra baixo: “Ela
disse que sim!” (risadas). E a gente acreditava naquilo!
Parece que a cidade
ficava mais agitada nesse período. Não só pela tensão dos estudantes querendo
melhorar suas notas, como também pelo comercio que começava a se preparar para
as vendas do final do ano. Começavam a chegar novos tecidos, sapatos,
brinquedos e outras coisas que encantavam nossos olhos prenatalinos.
Gostava muito de
tudo isso, mas, principalmente, de saber que as férias se aproximavam e que
logo estaria na estrada rumo a algum lugar diferente. E sabia que voltava de
qualquer um deles com a mala cheia de roupas e sapatos novos.
Também havia outros
motivos: era o tempo das jabuticabas! Aquelas bolinhas pretinhas grudadas no
caule. Que cena mais linda! Que delícia! Como era bom estar ali e viver esses
momentos de doçura, de fartura, de amor!
Todos os nossos
problemas se resumiam em ter boas notas e ter um namorado legal. O resto? Bem,
tudo o mais era resolvido pelos nossos pais e irmãos. Nada nos preocupava, nos
tirava o sono. Jovens e fortes, saúde maravilhosa, amigos e parentes à
vontade... o que nos poderia perturbar?
Nossas casas eram
arrumadas, bem limpas e com quintais grandes e ricos em frutas, hortaliças,
pássaros e alegria.
Tínhamos uma cidade
só nossa, toda nossa! Nossos professores, nossos amigos, nossa família, nossa
rua, nossa igreja, nosso cinema, nossa feira, nossa escola... e até nossos
doidos! Éramos todos ricos, milionários! Dinheiro não era problema, pois ali
todos eram muito iguais, independente da condição material, da cor, da origem.
Estudávamos no mesmo colégio, tínhamos os mesmos objetivos, os mesmos sonhos.
Se queríamos ver os
amigos, era só sairmos porta afora e logo nos batíamos de cara com um deles,
depois outro... e aquilo já virava quase uma festa. Fazíamos uma rodinha em
torno de um banco da praça (Êta Dácio! Êta Zezinho! Vocês os tiraram de lá...
ainda sinto falta deles!) e lá se ia metros e metros de conversa, fofoca,
piadas, causos... e haja amizade! E haja vida!
Engraçado como, não
havendo celular nem “bate papo eletrônico” (mesmo porque ainda não tinham
inventado nada disso), a gente se comunicava com tanta facilidade. Creio que
existia em nós um pouco do fenômeno telepático, pois é incrível como os
pensamentos se atraiam! Como tínhamos facilidade para nos acharmos uns aos
outros!
E, se decidíssemos
ir a alguma fazenda da região, fosse para comer rapadura quente no Engenho de
“Seo” Filinto ou de Tio Edgar, chupar manga ou laranja no Periperi do meu pai,
tomar banho na Passagem da Pedra, logo arranjávamos uma carona e era mais uma
tarde de muita diversão! Juro que ainda sinto o cheiro das frutas e do mel de
engenho. E morro de vontade de fazer tudo isso de novo.
E olhando para o céu
azul e limpo que se mostra através da janela da sala, a saudade só aumenta.
Lembro-me que saia à porta, atravessando o mercadinho, e encontrava meu pai
conversando com Né Raizeiro ou com Bilé. E entrava no papo feliz com a beleza
do dia e a presença da segurança da família e dos amigos. Pegava a chave do
carro e saia para uma volta pela pequenina Caetité, minha doce e maravilhosa
terrinha. Subia a Dois de Julho, atravessava a Praça, subia a Avenida e descia
a Barão, parando na porta da casa de Dr. Vani para falar com Tania, Naura,
Iara...
Ao meio dia estava
em casa pronta para almoçar. Adorava carne do sol com aipim. Mas se fosse
pequi... ah! Ai a alegria era dobrada! Principalmente se tivesse doce de Buriti
como sobremesa. Perfeito! Maravilha!
E ainda me lembro
dos pés de “sabonete” da praça, do jenipapeiro do Sr. Frederico e das
jabuticabeiras do velho Zuza. E sinto saudades daquelas ruas, daquelas pessoas,
daquele tempo em que o nosso sonho era ser feliz. E o perseguimos e alcançamos
o que queríamos. Mas nunca mais tivemos na boca o sabor daquelas jabuticabas
maduras de Caetité!
Realmente... saudade
é a lembrança do que já fomos!
Luzmar Oliveira
26.10.2013
(Foto de Luiz Benevides)

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