Elis Regina - FASCINAÇÃO

sábado, 26 de outubro de 2013


SAUDADE É A LEMBRANÇA DO QUE JÁ FOMOS

Naqueles dias, quase final de ano, as coisas apertavam para nós em Caetité. Tínhamos que estudar dobrado as matérias nas quais estávamos mais fracos, carentes de boas notas. Ou passávamos ou íamos para a tal “segunda época” e ai, adeus férias! Adeus minha chegadinha em São Paulo, minha esticadinha em Caculé em casa de Oneide.  Então caprichava mais e mais para não perder as oportunidades de curtir essas alegrias.
Havia uma crença de que as lagartixas respondiam nossas perguntas, e ai dizíamos: “Lagartixa, vou passar em matemática?” E ela balançava a cabeça pra cima e pra baixo: “Ela disse que sim!” (risadas). E a gente acreditava naquilo!
Parece que a cidade ficava mais agitada nesse período. Não só pela tensão dos estudantes querendo melhorar suas notas, como também pelo comercio que começava a se preparar para as vendas do final do ano. Começavam a chegar novos tecidos, sapatos, brinquedos e outras coisas que encantavam nossos olhos prenatalinos.
Gostava muito de tudo isso, mas, principalmente, de saber que as férias se aproximavam e que logo estaria na estrada rumo a algum lugar diferente. E sabia que voltava de qualquer um deles com a mala cheia de roupas e sapatos novos.
Também havia outros motivos: era o tempo das jabuticabas! Aquelas bolinhas pretinhas grudadas no caule. Que cena mais linda! Que delícia! Como era bom estar ali e viver esses momentos de doçura, de fartura, de amor!
Todos os nossos problemas se resumiam em ter boas notas e ter um namorado legal. O resto? Bem, tudo o mais era resolvido pelos nossos pais e irmãos. Nada nos preocupava, nos tirava o sono. Jovens e fortes, saúde maravilhosa, amigos e parentes à vontade... o que nos poderia perturbar?
Nossas casas eram arrumadas, bem limpas e com quintais grandes e ricos em frutas, hortaliças, pássaros e alegria.
Tínhamos uma cidade só nossa, toda nossa! Nossos professores, nossos amigos, nossa família, nossa rua, nossa igreja, nosso cinema, nossa feira, nossa escola... e até nossos doidos! Éramos todos ricos, milionários! Dinheiro não era problema, pois ali todos eram muito iguais, independente da condição material, da cor, da origem. Estudávamos no mesmo colégio, tínhamos os mesmos objetivos, os mesmos sonhos.
Se queríamos ver os amigos, era só sairmos porta afora e logo nos batíamos de cara com um deles, depois outro... e aquilo já virava quase uma festa. Fazíamos uma rodinha em torno de um banco da praça (Êta Dácio! Êta Zezinho! Vocês os tiraram de lá... ainda sinto falta deles!) e lá se ia metros e metros de conversa, fofoca, piadas, causos... e haja amizade! E haja vida!
Engraçado como, não havendo celular nem “bate papo eletrônico” (mesmo porque ainda não tinham inventado nada disso), a gente se comunicava com tanta facilidade. Creio que existia em nós um pouco do fenômeno telepático, pois é incrível como os pensamentos se atraiam! Como tínhamos facilidade para nos acharmos uns aos outros!
E, se decidíssemos ir a alguma fazenda da região, fosse para comer rapadura quente no Engenho de “Seo” Filinto ou de Tio Edgar, chupar manga ou laranja no Periperi do meu pai, tomar banho na Passagem da Pedra, logo arranjávamos uma carona e era mais uma tarde de muita diversão! Juro que ainda sinto o cheiro das frutas e do mel de engenho. E morro de vontade de fazer tudo isso de novo.
E olhando para o céu azul e limpo que se mostra através da janela da sala, a saudade só aumenta. Lembro-me que saia à porta, atravessando o mercadinho, e encontrava meu pai conversando com Né Raizeiro ou com Bilé. E entrava no papo feliz com a beleza do dia e a presença da segurança da família e dos amigos. Pegava a chave do carro e saia para uma volta pela pequenina Caetité, minha doce e maravilhosa terrinha. Subia a Dois de Julho, atravessava a Praça, subia a Avenida e descia a Barão, parando na porta da casa de Dr. Vani para falar com Tania, Naura, Iara...
Ao meio dia estava em casa pronta para almoçar. Adorava carne do sol com aipim. Mas se fosse pequi... ah! Ai a alegria era dobrada! Principalmente se tivesse doce de Buriti como sobremesa. Perfeito! Maravilha!
E ainda me lembro dos pés de “sabonete” da praça, do jenipapeiro do Sr. Frederico e das jabuticabeiras do velho Zuza. E sinto saudades daquelas ruas, daquelas pessoas, daquele tempo em que o nosso sonho era ser feliz. E o perseguimos e alcançamos o que queríamos. Mas nunca mais tivemos na boca o sabor daquelas jabuticabas maduras de Caetité!
Realmente... saudade é a lembrança do que já fomos!
Luzmar Oliveira
26.10.2013
(Foto de Luiz Benevides)

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