RELEMBRANDO COISAS E FATOS
- Pronto! É essa ai!
Encostei a mão na folhagem e disse
feliz: “Maria fecha a porta que evém o boi”.
E ri feliz!
E meu velho pai sorriu e continuou a
cortar os cachos de banana, cortando também a bananeira. E continuamos nossa
excursão pelo enorme quintal da nossa casa em Caetité.
E era sempre assim. Não só comigo,
mas com todas as crianças da cidade. Procurávamos aquela plantinha e repetíamos
a frase, felizes e sorridentes. Êta vida boa danada! O que ali vivemos não dá
pra contar em uma só reencarnação. Nem o que aprendemos com nossos pais,
irmãos, primos, tios, amigos... Temos tantas histórias pra contar que
espantaríamos até Monteiro Lobato e a Dona Carochinha juntos! (risos).
Nossas caçadas não eram só às
plantinhas, mas também corríamos atrás de borboletas, mariposas, tanajuras,
calangos, lagartixas, abelha sanharó (aquelas que fabricam cera e grudam no
nosso cabelo), besouros e tantas outras curiosidades infantis!
Se duvidarem, eu chamo Celina pra
provar isso, pois em matéria de memória ninguém supera aquela menina. Ela se
lembra até da cor da roupa da professora no primeiro dia de aula no Jardim de
Infância. Imaginem que ela sabe o nome de todos os nossos colegas daquele
tempo! Eu aposto nela em qualquer disputa!
Lá existe uma lenda sobre a família
Prisco (Loy ta ai e não me deixa mentir), que é a mais erudita de todas e usa
palavras mais difíceis que o vocabulário de Rui Barbosa. Uma das metáforas mais
simples é aquela: “O batráquio não imerge as patas trazeiras no H2O, porque não
lhes é conveniente”. Ou seja, “o sapo não lava o pé porque não quer”. Ou aquela
outra “Prole de um amor impuro” que todo mundo sabe o que significa.
E há também uma que conta que um
certo senhor dizia. Ao cometer um erro crasso de português:
“Coloquei um pé na ilha
E outro no continente!
Dei um chute na gramática
No meio de tanta gente!”
E a minha amiga Jerusa há de se
lembrar que a nossa professora e irmã do referido senhor, ao lhe fazer uma
pergunta na sala de aula e a mesma não responder, disse:
“Mocinha, você não sabe nada! E
quando chegar a hora da formatura, a senhora abre as asas, bate as asas e sai
voando como uma borboleta!”
Pois é... Nossa história tem essas
coisas, esses momentos meio “esdrúxulos” que a enriquecem e a tornam mais colorida.
Não há um só de nós que não saiba
cantar os hinos brasileiros de cor. Tínhamos uma caderneta onde os copiávamos
e, uma vez por semana, nos reuníamos em uma sala das Escolas Anexas, no Largo
da Feira Velha, e cantávamos todos eles. E nossas professoras na frente, nos
acompanhando e ensinando a postura correta. Foi assim que aprendemos a
respeitar e amar a pátria através dos seus símbolos.
E a tabuada? Tinha aquele livrinho
fininho, pequeno, de papel jornal, com toda a tabuada de somar, diminuir,
multiplicar e dividir. E haja cantilena para a decoreba acontecer. Essa parte
eu até gostaria de pular, porque até hoje não curto números e só sei fazer
conta através de máquina. Se bem que, a despeito disso, eu era ótima aluna.
Por falar em tabuada e livrinho,
alguém se lembra do famoso ABC? Esse eu achava lindo! Tai, da mesma forma que
não gostava dos números, em igual ou maior intensidade, sempre fui apaixonada
pelas letras. Acho-as fascinantes e junta-las formando nomes, frases, textos é
maravilhoso!
Um outro livrinho que caiu em desuso
é o Almanaque de Farmácia. Além das propagandas de remédio, eram cheios de
“causos”, estórias e piadas, além de algumas charadas e as famosas “O que é, o
que é?”, que eram perguntas para respondermos, um tipo de jogo legal, como: “O
que é cai em pé e corre deitado?” ou “O que é que tem pé redondo e rastro
comprido?” Poxa, isso caiu de moda, o que é uma pena. Eu adoro até hoje!
E nessa época do ano então, o que
mais nos divertia eram os caminhões de romeiros. Eles viajavam de longas
distâncias para visitarem o Bom Jesus da Lapa. Em “paus de arara”, tal como os
retirantes do nordeste que iam para São Paulo em busca das ilusões, pisando no
lado errado do chão. Mas os romeiros são pessoas de muita fé. A grande maioria
vai à Lapa para pagar promessas de cura. E, nos caminhões cobertos com toldo de
lona e bancos de tábuas, sem nenhum conforto, enfrentavam, muitas vezes, dias
de viagem debaixo de sol ou chuva, se alimentando de pão, bolo e galinha
farofada que traziam no bornal. E entravam nas cidades do caminho cantando musicas
sacras e visitando igrejas:
“Jesus é meu,
Eu sou de Jesus,
Jesus vai comigo
E eu vou com Jesus!”
Há tanto o que contar, o que falar,
o que lembrar que é preciso tempo e disciplina, para não acabar confundindo e
misturando coisas.
Vocês hão de se lembrar comigo e
acrescentar histórias, perguntas, músicas e nomes de insetos, lugares,
pessoas...
O bom de escrever aqui é isso, todos
podem interagir e exercitar a escrita.
Por hoje eu paro. Mas outro dia
escrevo mais.
Luzmar Oliveira

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