ELA NOS ESCOLHEU!
SOMOS OS ALUNOS DE DONA JUDITH!
Nós
fomos escolhidos. Havia uma lista de novos alunos para ingressarem no primário
e dona Judith Moreira da Cunha teve acesso à mesma e nos escolheu. Um a um.
No
primeiro dia de aula chegamos de saia plissada azul marinho e blusa branca,
sapato e meia, uma pastinha com livros e uma lancheira. Às vezes levávamos uma
moringa pequena de cerâmica com agua e um copo. Os meninos usavam calças curtas
e jaqueta de brim caqui.
Nossa
sala era a segunda do Pavilhão Góes Calmon e ficava ao lado do Jardim de
Infância (de onde viemos), no pátio de entrada das Escolas Anexas à Escola
Normal e Colégio Estadual de Caetité. Um prédio amarelo, alto, com escadas
externas, na Feira Velha.
Em
frente, o Pavilhão Rui Barbosa onde ficavam a Diretoria e o Salão Nobre.
No
meio, um pedestal com o busto da Princesa Isabel onde brincávamos, abraçávamos
aquela por nós considerada heroína e ainda usávamos seus degraus para pular e
curtir. Ainda havia outro canteiro com muitas verbenas multicoloridas e um
lindo mandacaru.
Nossa
sala era linda! Janelas enormes que deixavam a luz do dia entrar e iluminar
nossas vidas. Carteiras individuais. Três filas. Na primeira e terceira, as
meninas. Na do meio, os meninos. Eu me sentava na primeira carteira da terceira
fila e, atrás de mim, Ana Helena.
Engraçado
é que éramos todos lindos, arrumados, limpos e cheirosos. Adorávamos aquela
escola e sempre fomos muito amigos. Coisas de dona Judith, mulher incrível,
inteligente e de uma pedagogia invejável! Explicava com tanto carinho e tanta
propriedade do conhecer, que era fácil aprender, reter, gostar daquilo. Tanto
que até hoje não me esqueço do que ali foi dito e ensinado. Jamais conheci
professora igual.
No
fundo da sala havia uma estante fechada onde algumas dezenas de bons livros nos
faziam viajar e sonhar com outros mundos. Havia aulas de leitura silenciosa ou
coletiva. Ah! Os livros foram todos doados por amigos daquela mestra que nos
ensinou a escrever cartas para cada um deles pedindo a doação. Que alegria
quando chegavam! Que orgulho dessa biblioteca tão nossa!
Pelas
paredes, lindos cartazes. Todos com a finalidade de nos facilitar o aprendizado
das diversas disciplinas ali ensinadas.
Em
um canto, uma espécie de cavalete ou “flip chart” sustentava volumoso bloco de
papel encorpado com gravuras incríveis! Deviam medir pouco mais de meio metro,
mas, para nós, pequeninos estudantes, eram imensas! E lindas! Uma vez por
semana ela escolhia uma e nos mandava fazer uma descrição da mesma. Lembro-me
em particular de uma que me deixava muito triste, pois havia uma menina muito
pobre e um sapateiro, e ele olhava o sapatinho bem estragado como se dissesse
que não havia mais como recupera-lo... e a garota demonstrava enorme tristeza.
Essa ficou, para sempre, gravada em minha memória.
O
piso era de tábuas largas e firmes. Certa tarde, Tania Silveira resolveu passar
em casa de dona Judith e apanhar a chave e nos deixou entrar. Fechamos a porta
e, cada vez que chegava um coleguinha, fazíamos um barulhão saltando sobre o
assoalho para assusta-lo. E não é que fizemos o mesmo quando a professora
chegou? Êta! Foi uma bronca daquelas! E, é claro, caiu a casa para Tania, uma
pessoa de uma doçura incrível! Mas foi muito divertido!
La
fora, um mundaréu de terreno daquela escola cheia de pátios e muitos lugares
para brincarmos. Um campinho atrás do Salão Nobre, um espaço enorme frente à
cantina de dona Isolina, e muito mais depois do outro portão. Mas havia um muro
que dava para a rua lateral que fazia esquina com a loja do Sr. João Bomfim
(aquela em que havia um lápis gigante pendurado na porta), onde haviam grades
de madeira e casas de “Sanharó”. Essas abelhinhas fabricavam muita cera e
sempre íamos, com um pauzinho, escava-la e, volta e meia, os bichinhos grudavam
em nosso cabelo. Era um trabalhão para retira-los!
Além
das aulas de recreação, uma vez por semana, no Campo da Primavera, tínhamos
também aulas de trabalhos manuais dadas por dona Idalina Vieira Cardoso, mãe de
Welton e Valdelina, ele da nossa turma e ela sempre nos visitando.
Mas
o que mais nos encantava mesmo era o Clube da Bondade. Uma espécie de
associação fechada, criada pela mestra, para nos levar a fazer boas ações,
aprender cidadania e a sermos amigos. Welton era o presidente e eu a vice. Pois
pois... tínhamos até um hino que cantávamos em coro. Foi composto por uma amiga
da professora. E é lindo! Eu o sei de cor até hoje e creio que todos os colegas
também.
Desta
turma, perdi muitos de vista, outros já nos deixaram rumo à pátria original e
alguns continuam próximos, como Ana Helena, Celina, Tânia, Ene, Marcia,
Dauzinho, Beto, Welton, Valdelina... Dauzinho é o meu cardiologista e adora
pegar no meu pé! Celina está sempre no face, onde nos comunicamos diariamente,
e participa dos nossos encontros no Rio Vermelho. E Ana Helena, a nossa querida
“Xupimpa”, mora no Rio, mas nos falamos quase todos os dias por telefone.
Mas
há mais uma coisa a dizer: Não éramos amigos: Somos! Ainda há em nós a marca
daqueles dias de infância tão feliz e na qual tanto aprendemos. Ainda
carregamos o orgulho de sermos “alunos de dona Judith”! E tenho certeza que
ela, de onde está, sente-se feliz e realizada com o resultado das suas lições
de amor e amizade!
Obrigada
mestra querida. Que o Senhor a abençoe e guie sempre. E, se der, na próxima
romagem terrena queremos ser seus alunos de novo! Grade professora, grande
mulher, magnífico ser humano! Nós a amamos muito!
Luzmar
Oliveira.
HINO
DO CLUBE DA BONDADE
Nós
os pequenos pioneiros
Da
excelsitude da bondade
Seremos
sempre mensageiros
Da
fé, esperança e caridade.
Crendo
no bem e amando o belo
Disseminando
a sã moral
São
nossos atos um libelo
Contra
a mentira e contra o mal.
Auxílio
mútuo dispensamos
Doçura,
amor e cordialidade
Bem
alto estamos, elevando
O
nosso Clube da Bondade.
Sua
bandeira amada ergamos
Possamos
alto assim bradar
Nós
somos bons e assim honramos
A
Deus, à pátria e ao nosso lar!

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