Elis Regina - FASCINAÇÃO

domingo, 20 de outubro de 2013


ELA NOS ESCOLHEU!
SOMOS OS ALUNOS DE DONA JUDITH!

Nós fomos escolhidos. Havia uma lista de novos alunos para ingressarem no primário e dona Judith Moreira da Cunha teve acesso à mesma e nos escolheu. Um a um.
No primeiro dia de aula chegamos de saia plissada azul marinho e blusa branca, sapato e meia, uma pastinha com livros e uma lancheira. Às vezes levávamos uma moringa pequena de cerâmica com agua e um copo. Os meninos usavam calças curtas e jaqueta de brim caqui.
Nossa sala era a segunda do Pavilhão Góes Calmon e ficava ao lado do Jardim de Infância (de onde viemos), no pátio de entrada das Escolas Anexas à Escola Normal e Colégio Estadual de Caetité. Um prédio amarelo, alto, com escadas externas, na Feira Velha.
Em frente, o Pavilhão Rui Barbosa onde ficavam a Diretoria e o Salão Nobre.
No meio, um pedestal com o busto da Princesa Isabel onde brincávamos, abraçávamos aquela por nós considerada heroína e ainda usávamos seus degraus para pular e curtir. Ainda havia outro canteiro com muitas verbenas multicoloridas e um lindo mandacaru.
Nossa sala era linda! Janelas enormes que deixavam a luz do dia entrar e iluminar nossas vidas. Carteiras individuais. Três filas. Na primeira e terceira, as meninas. Na do meio, os meninos. Eu me sentava na primeira carteira da terceira fila e, atrás de mim, Ana Helena.
Engraçado é que éramos todos lindos, arrumados, limpos e cheirosos. Adorávamos aquela escola e sempre fomos muito amigos. Coisas de dona Judith, mulher incrível, inteligente e de uma pedagogia invejável! Explicava com tanto carinho e tanta propriedade do conhecer, que era fácil aprender, reter, gostar daquilo. Tanto que até hoje não me esqueço do que ali foi dito e ensinado. Jamais conheci professora igual.
No fundo da sala havia uma estante fechada onde algumas dezenas de bons livros nos faziam viajar e sonhar com outros mundos. Havia aulas de leitura silenciosa ou coletiva. Ah! Os livros foram todos doados por amigos daquela mestra que nos ensinou a escrever cartas para cada um deles pedindo a doação. Que alegria quando chegavam! Que orgulho dessa biblioteca tão nossa!
Pelas paredes, lindos cartazes. Todos com a finalidade de nos facilitar o aprendizado das diversas disciplinas ali ensinadas.
Em um canto, uma espécie de cavalete ou “flip chart” sustentava volumoso bloco de papel encorpado com gravuras incríveis! Deviam medir pouco mais de meio metro, mas, para nós, pequeninos estudantes, eram imensas! E lindas! Uma vez por semana ela escolhia uma e nos mandava fazer uma descrição da mesma. Lembro-me em particular de uma que me deixava muito triste, pois havia uma menina muito pobre e um sapateiro, e ele olhava o sapatinho bem estragado como se dissesse que não havia mais como recupera-lo... e a garota demonstrava enorme tristeza. Essa ficou, para sempre, gravada em minha memória.
O piso era de tábuas largas e firmes. Certa tarde, Tania Silveira resolveu passar em casa de dona Judith e apanhar a chave e nos deixou entrar. Fechamos a porta e, cada vez que chegava um coleguinha, fazíamos um barulhão saltando sobre o assoalho para assusta-lo. E não é que fizemos o mesmo quando a professora chegou? Êta! Foi uma bronca daquelas! E, é claro, caiu a casa para Tania, uma pessoa de uma doçura incrível! Mas foi muito divertido!
La fora, um mundaréu de terreno daquela escola cheia de pátios e muitos lugares para brincarmos. Um campinho atrás do Salão Nobre, um espaço enorme frente à cantina de dona Isolina, e muito mais depois do outro portão. Mas havia um muro que dava para a rua lateral que fazia esquina com a loja do Sr. João Bomfim (aquela em que havia um lápis gigante pendurado na porta), onde haviam grades de madeira e casas de “Sanharó”. Essas abelhinhas fabricavam muita cera e sempre íamos, com um pauzinho, escava-la e, volta e meia, os bichinhos grudavam em nosso cabelo. Era um trabalhão para retira-los!
Além das aulas de recreação, uma vez por semana, no Campo da Primavera, tínhamos também aulas de trabalhos manuais dadas por dona Idalina Vieira Cardoso, mãe de Welton e Valdelina, ele da nossa turma e ela sempre nos visitando.
Mas o que mais nos encantava mesmo era o Clube da Bondade. Uma espécie de associação fechada, criada pela mestra, para nos levar a fazer boas ações, aprender cidadania e a sermos amigos. Welton era o presidente e eu a vice. Pois pois... tínhamos até um hino que cantávamos em coro. Foi composto por uma amiga da professora. E é lindo! Eu o sei de cor até hoje e creio que todos os colegas também.
Desta turma, perdi muitos de vista, outros já nos deixaram rumo à pátria original e alguns continuam próximos, como Ana Helena, Celina, Tânia, Ene, Marcia, Dauzinho, Beto, Welton, Valdelina... Dauzinho é o meu cardiologista e adora pegar no meu pé! Celina está sempre no face, onde nos comunicamos diariamente, e participa dos nossos encontros no Rio Vermelho. E Ana Helena, a nossa querida “Xupimpa”, mora no Rio, mas nos falamos quase todos os dias por telefone.
Mas há mais uma coisa a dizer: Não éramos amigos: Somos! Ainda há em nós a marca daqueles dias de infância tão feliz e na qual tanto aprendemos. Ainda carregamos o orgulho de sermos “alunos de dona Judith”! E tenho certeza que ela, de onde está, sente-se feliz e realizada com o resultado das suas lições de amor e amizade!
Obrigada mestra querida. Que o Senhor a abençoe e guie sempre. E, se der, na próxima romagem terrena queremos ser seus alunos de novo! Grade professora, grande mulher, magnífico ser humano! Nós a amamos muito!
Luzmar Oliveira.

HINO DO CLUBE DA BONDADE

Nós os pequenos pioneiros
Da excelsitude da bondade
Seremos sempre mensageiros
Da fé, esperança e caridade.

Crendo no bem e amando o belo
Disseminando a sã moral
São nossos atos um libelo
Contra a mentira e contra o mal.

Auxílio mútuo dispensamos
Doçura, amor e cordialidade
Bem alto estamos, elevando
O nosso Clube da Bondade.

Sua bandeira amada ergamos
Possamos alto assim bradar
Nós somos bons e assim honramos
A Deus, à pátria e ao nosso lar!



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