Elis Regina - FASCINAÇÃO

terça-feira, 21 de maio de 2013


NOS CIRCOS DA NOSSA VIDA

“De você eu me despeço com a mão esquerda, a mão do coração!” Disse o garoto do circo àquela menina...
Quem nunca teve suas paixões pelos artistas dos circos mambembes que passavam pelas cidades do interior?
Adolescência. Chega a Caetité o Circo Luso Brasileiro, o Real Madri, outros circos... Angela Rios. Miss Jane...  Os garotos se encantaram com miss Jane e as garotas com os equilibristas, trapezistas...
E assim foi, inúmeras vezes. A cada circo, uma nova paixão, como ainda hoje acontece com os atores, cantores e jogadores. Uma idolatria maravilhosa que terminava quando partiam.
Não havia, para nós, coisa melhor que ir ver Mexicanito driblar os “touros” que, na realidade, eram bois bravos (às vezes nem tanto) trazidos das fazendas vizinhas. E o circo de Zé Lingüiça com sua esposa Maria Silva requebrando para os senhores da primeira fila? “Uma paradinha para Osvaldo Melo!”  
Quantas vedetes dançaram o mambo naquelas barracas de lona e encantaram gerações! Quantos trapezistas se penduraram nas cordas e deram saltos mortais e fizeram acrobacias maravilhosas arrancando aplausos e emoções!
E os palhaços? Mascota e Pichurim... Zé Lingüiça... Garrafinha... “Ai Marieta, ai minha preta! Nem que o diabo arranque o rabo eu não deixo a Marieta! Oh! Marie-ta! Oh! Minha pre-ta!”
Espetáculos diários e as famílias se deslocando para a grande tenda, alguns levando cadeiras, para assistir aqueles momentos de alegria e descontração. Havia até peças de teatro. Dramas! Comédias! Lembro-me de “Coração Materno”, peça altamente trágica que arrancava lágrimas da platéia!
Como eram simples os nossos gostos! Como exigíamos pouco da vida! Talvez, por isso, fôssemos tão felizes e nos sentíamos, por menos dinheiro que tivesse a nossa família, ricos e poderosos! Mesmo sendo uma cidade pequena, nunca nos faltava diversão, pois, se não viesse de fora, nós a criávamos: Pequenas peças de teatro, quermesses, serviços de alto-falantes, parques, passeios na praça e festinhas em casas de amigos.
Quem não freqüentou as festas de Tiabinha? Quem não espiou os ensaios dos Tártaros em casa de Teka? As missas festivas onde havia de tudo, até Meinha, Solange e companhia aprontando no coro da igreja ou amarrando os cadarços dos sapatos dos rapazes e fazendo-os tropeçar? Quem nunca se divertiu com as armações de Caju, Tauá e sua turminha? Com o barulho diferente do acelerador das rurais de Fiim e Lelinho? E com tantas outras brincadeiras desse povo maravilhoso e unido?
Tempos de uma cidade distante da capital e rica em seres humanos. Famílias tradicionais que eram iguais às mais humildes, pois, nas festas e celebrações todos se misturavam e não havia preconceitos. A escola era a mesma para aqueles jovens que aprendiam graças à competência e amor à profissão dos mestres (alguns eram tão dedicados e preparados que se tornaram quase lendas!). Onde filhos pediam a benção aos pais, avós e tios e os respeitavam e aos mais velhos, como lhes foi ensinado. Onde freqüentávamos o catecismo, assistíamos à missa e nos orgulhávamos de ter um bispo, um ministro protestante e um dos primeiros centros espíritas do interior baiano.
O tempo passou. Fomos perdendo a fonte luminosa que havia em frente à casa do Sr. Durval; o Teatro Centenário, símbolo da nossa tradição de cidade cultura; Os diversos pavimentos da Escola Normal e sua linda estátua da Princesa Isabel; o mercado antigo; o nosso amado Cine Vitória; o jardim ao lado da igreja e tantos outros que marcaram a nossa cidade, a nossa vida!
Hoje são lembranças. São casos que contamos e nos trazem saudades. São momentos de uma vida, de muitas vidas que foram geradas ali ou se transferiram pra lá. Sagas de famílias inteiras que descobriram, que construíram Caetité e ajudaram a escrever a sua história! E agora, quando falamos do passado, da saudade, das lembranças das nossas vivencias de Caetiteenses, nos irmanamos em sentimentos idênticos, em emoções maravilhosas que nos trazem a consciência de que acertamos em alguma coisa e que fomos jovens privilegiados e muito felizes! Indubitavelmente esta é a causa principal de hoje sermos pessoas bem resolvidas e amigas.
Um beijo na alma de quem lê e se vê em minhas crônicas.
Luzmar Oliveira
21.05.2013


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