SAUDADE
DO FRIO DA MINHA TERRA
Naquelas
noites eu chegava em casa às 21 horas. Impreterivelmente. E, na salinha de
entrada, olhava o termômetro na parede que marcava 12 ou 13 graus.
A
terra do frio. Para dormir, blusa de manga comprida, gola rolê, meias e alguns
quilos de cobertores.
Pela
manhã a névoa fria, a neblina. E o vento batia no rosto ao subir a avenida rumo
à escola. Parecia que havia um pingente de gelo na ponta do nariz. Mas a gente
nem ligava, pois andávamos em turma, sorrindo e contando as novidades, fazendo
comentários ou falando dos namorados e paqueras.
Essa
era a nossa Caetité dos velhos tempos. Nossa terra tão amada! Onde, nessa época
do ano, o frio era marcante e pintava o céu de um cinza claro. Pela manhã a
garoa rorejava os carros e as folhagens. E agasalhados até os dentes, íamos a
passos apressados assistir as aulas no IEAT.
Tanto
tempo depois, as recordações ainda são nítidas e trazem uma saudade bem grande
de tudo, inclusive das pessoas que tanto amamos.
Tínhamos
uma vida simples, numa cidade pequena e longe da capital. E sonhávamos sair
dali para frequentar as faculdades, caminhar por outras trilhas, conhecer novas
pessoas e crescer na vida. Progredir.
E
assim o fizemos. Malas arrumadas, aprovados no vestibular, diploma na mão...
emprego, casamento, filhos, uma vida totalmente diferente da que vivemos na
nossa cidade do sertão baiano...
Novos
amigos e novos colegas.
E
agora, passado quase uma vida, buscamos resgatar nossas origens e reencontrar
aquelas pessoas que cresceram conosco, que dividiram experiências, comeram as
mesmas frutas, roeram os mesmos pequis, frequentaram as mesmas festas e aulas.
E brincaram das mesmas coisas.
Hoje
buscamos nas músicas a trilha sonora de uma juventude feliz, de uma época de
alegria descontraida, onde a cidadezinha era palco do melhor colégio e agregava
estudantes de toda a região. Um tempo em que havia mangas, mangabas, umbus,
laranjas, goiabas, melancias, tangerinas, jabuticabas e guabirobas.
Um
tempo em que tudo era motivo pra festa, pra alegria, pra vida!
Um
tempo onde nossos pais e irmãos estavam vivos e a família festejava cada
aniversário, cada São João, cada natal!
E o
termômetro daqui não marca esse frio, em Salvador todo dia é dia de calor. E as
rádios não tocam aquelas músicas e nem esperamos mais, com ansiedade, as férias
da faculdade para tomarmos o ônibus de volta para casa. Crescemos e mudamos.
Nossa vida tomou outro rumo e adquirimos novos hábitos. Somos professores,
médicos, advogados, dentistas, bancários, administradores, economistas,
psicólogos, pedagogos, jornalistas... somos o que escolhemos ou o que
conseguimos ser!
Mas
há em nós, além das lembranças, uma certeza de que vivemos e fomos muito
felizes naquela terrinha! A certeza absoluta que marcamos presença e o fizemos
tão bem e tão fortemente que, ainda hoje, conseguimos reunir amigos de uma vida
toda para contarmos causos, ouvirmos histórias e matar a imensa saudade dali!
Ainda
hoje sonhamos com os sinos da catedral, com o som, dos Tártaros tocando “O
Milionário”, com as matracas das procissões, a narração do enterro por
Compadre, ou com o doce de batata doce de Isolina ou Veneranda.
Ainda
hoje cultuamos em nosso interior a palavra que mais retrata, que mais lembra e
descreve a nossa vida em Caetité: a palavra AMOR!
Luzmar
Oliveira

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