Elis Regina - FASCINAÇÃO

domingo, 26 de maio de 2013



SÓ PARA AGRADECER

A tarde se finda e o tempo esfria. Há no céu uma nuvem avermelhada e ela traz uma saudade não sei de que.
Quando eu era menina, meu pai tinha uma padaria e, muitas vezes, mandava a mim e ao meu irmão Fiim fazer entregas aos clientes. E, ao voltar para casa, parava um pouco na praça e ficava a admirar aquela mancha vestida de escarlate que me transmitia paz e pensava em Deus. Achava que era a barra da manta de Jesus. De repente, o relógio da catedral badalava a Ave Maria e meu coraçãozinho dualista acelerava e, orando, descia correndo a Dois de Julho com pressa de estar protegida em minha casa. Sempre tive medo ao anoitecer... até hoje não consigo dominar o pavor se estiver, nessa hora, sozinha e a pé distante de casa.
Quantos de nós, mesmo depois de algumas décadas de vida, ainda teme a escuridão, a solidão e os barulhos estranhos? Há sempre essa coisa esquesita que nos domina e abala. Como explica-la? Não sou psicóloga, mas imagino que há, la no fundo, alguma lembrança adormecida que ainda nos deixa inseguros e temerosos. Traumas? Talvez... mas algo que realmente cala fundo e traz uma vontade incrível de casa, de colo, de proteção.
E, no aconchego do lar, café quentinho na mesa, papo de irmãos e pais, nós encontrávamos o que mais queríamos: o carinho e a certeza de que já não havia perigo. E no minuto seguinte já havíamos esquecido tudo e ríamos e contávamos casos daquele dia. Devorávamos o pão quentinho, a sopa, o aipim com manteiga de garrafa e tudo era só alegria!
O tempo passou e nossos pais se foram. Os cabelos brancos chegaram e somos chamadas de vó. Que delícia! Passamos pelo tempo, pelos caminhos da vida e trouxemos conosco o que realmente é nosso: as lembranças e o aprendizado.
Lembranças de que? De dias felizes e de dias difíceis que fizeram parte da nossa colheita. De amigos que fizemos e cultivamos e dos que perdemos pelos caminhos ou se distanciaram de nós. Dos que partiram antes. Dos que foram apenas circunstanciais.
Lembranças dos amores de juventude que tanto nos fizeram acelerar o coração e levar horas ouvindo músicas apaixonadas!
Das festinhas de final de semana em casa dos amigos ou no clube, onde ansiávamos sermos chamadas pelos garotos que paquerávamos. Aliás, não era paquera, era flerte! Rsrs E como era gostoso flertar!
As músicas de Roberto Carlos, Aguinaldo Timóteo, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Wanderleia, Jerry Adriani... Golden Boys, Renato e seu Blue Caps... e as estrangeiras: Roberta, Besame Mucho, Al Di La, Dio Come ti Amo... Uma infinitude de cantores e títulos que tanto nos afagavam a alma quanto disparavam nosso coração.
E as serenatas que varavam madrugadas com o maravilhoso toca- disco Phillips movido a pilha e os românticos LPs... ou o tradicional voz e violão dos rapazes da nossa cidade!
Como era bom ser de Caetité! Como era bom estar e viver em Caetité! Como aprendemos e crescemos naquela terra bendita que nos deu, como diz Gil, “régua e compasso”! Que nos fez humanos e verdadeiros, saudosos mas conscientes da vida! Que nos ensinou que podemos trazer essa saudade, que o tempo não volta, mas que o importante é ter da vida a marca da felicidade!
Caetité, eu te agradeço por haver me dado o direito de nascer ai e ai viver o tempo das belezas, das laranjas maduras, dos carros de boi zuadentos, das jabuticabas tão doces, dos pequis maravilhosos e dos doces de tacho que dona Ana fazia com tanto amor!
Podemos encher o peito, levantar a cabeça e dizer em alto e bom tom: Vivi! E vivi com toda a energia da minha juventude e de lá trouxe a garra para hoje enfrentar a maturidade a pleno vapor!
Luzmar Oliveira

(Na foto de Luiz Benevides, a Rua 2 de Julho - Caetité - Ba - Rua onde morei)

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