SÓ PARA AGRADECER
A
tarde se finda e o tempo esfria. Há no céu uma nuvem avermelhada e ela traz uma
saudade não sei de que.
Quando
eu era menina, meu pai tinha uma padaria e, muitas vezes, mandava a mim e ao
meu irmão Fiim fazer entregas aos clientes. E, ao voltar para casa, parava um
pouco na praça e ficava a admirar aquela mancha vestida de escarlate que me
transmitia paz e pensava em Deus. Achava que era a barra da manta de Jesus. De
repente, o relógio da catedral badalava a Ave Maria e meu coraçãozinho dualista
acelerava e, orando, descia correndo a Dois de Julho com pressa de estar
protegida em minha casa. Sempre tive medo ao anoitecer... até hoje não consigo
dominar o pavor se estiver, nessa hora, sozinha e a pé distante de casa.
Quantos
de nós, mesmo depois de algumas décadas de vida, ainda teme a escuridão, a
solidão e os barulhos estranhos? Há sempre essa coisa esquesita que nos domina
e abala. Como explica-la? Não sou psicóloga, mas imagino que há, la no fundo,
alguma lembrança adormecida que ainda nos deixa inseguros e temerosos. Traumas?
Talvez... mas algo que realmente cala fundo e traz uma vontade incrível de
casa, de colo, de proteção.
E,
no aconchego do lar, café quentinho na mesa, papo de irmãos e pais, nós
encontrávamos o que mais queríamos: o carinho e a certeza de que já não havia
perigo. E no minuto seguinte já havíamos esquecido tudo e ríamos e contávamos
casos daquele dia. Devorávamos o pão quentinho, a sopa, o aipim com manteiga de
garrafa e tudo era só alegria!
O
tempo passou e nossos pais se foram. Os cabelos brancos chegaram e somos
chamadas de vó. Que delícia! Passamos pelo tempo, pelos caminhos da vida e trouxemos
conosco o que realmente é nosso: as lembranças e o aprendizado.
Lembranças
de que? De dias felizes e de dias difíceis que fizeram parte da nossa colheita.
De amigos que fizemos e cultivamos e dos que perdemos pelos caminhos ou se
distanciaram de nós. Dos que partiram antes. Dos que foram apenas
circunstanciais.
Lembranças
dos amores de juventude que tanto nos fizeram acelerar o coração e levar horas
ouvindo músicas apaixonadas!
Das
festinhas de final de semana em casa dos amigos ou no clube, onde ansiávamos
sermos chamadas pelos garotos que paquerávamos. Aliás, não era paquera, era
flerte! Rsrs E como era gostoso flertar!
As
músicas de Roberto Carlos, Aguinaldo Timóteo, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra,
Wanderleia, Jerry Adriani... Golden Boys, Renato e seu Blue Caps... e as
estrangeiras: Roberta, Besame Mucho, Al Di La, Dio Come ti Amo... Uma
infinitude de cantores e títulos que tanto nos afagavam a alma quanto
disparavam nosso coração.
E
as serenatas que varavam madrugadas com o maravilhoso toca- disco Phillips movido
a pilha e os românticos LPs... ou o tradicional voz e violão dos rapazes da
nossa cidade!
Como
era bom ser de Caetité! Como era bom estar e viver em Caetité! Como aprendemos
e crescemos naquela terra bendita que nos deu, como diz Gil, “régua e compasso”!
Que nos fez humanos e verdadeiros, saudosos mas conscientes da vida! Que nos
ensinou que podemos trazer essa saudade, que o tempo não volta, mas que o
importante é ter da vida a marca da felicidade!
Caetité,
eu te agradeço por haver me dado o direito de nascer ai e ai viver o tempo das
belezas, das laranjas maduras, dos carros de boi zuadentos, das jabuticabas tão
doces, dos pequis maravilhosos e dos doces de tacho que dona Ana fazia com
tanto amor!
Podemos
encher o peito, levantar a cabeça e dizer em alto e bom tom: Vivi! E vivi com
toda a energia da minha juventude e de lá trouxe a garra para hoje enfrentar a
maturidade a pleno vapor!
Luzmar
Oliveira
(Na foto de Luiz Benevides, a Rua 2 de Julho - Caetité - Ba - Rua onde morei)

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