Elis Regina - FASCINAÇÃO

segunda-feira, 25 de julho de 2016



EXISTEM DETERMINADAS LEMBRANÇAS QUE NOS MARCAM A VIDA...

Vocês já sentiram “cheiro de pensionato”? Pois é... é aquele cheiro que sentimos quando moramos em um... Tipo cheiro de sabonete adocicado... Ou perfumes de supermercado... Ou daquela comida mal temperada e, às vezes, mal cozida! São traumas que trazemos pelos corredores da vida e dos quais nunca conseguimos nos desvencilhar, por ficarem impregnados em nossas narinas. Marcas de um tempo em que gramamos muito para sobreviver, principalmente à saudade da nossa casa limpinha e acolhedora. Da comida da nossa mãe, do café da manhã com bolos, chiringa, chimango e beiju com manteiga de garrafa. Daquele almoço onde havia desde o feijão novinho até a carne do sol assada em panela de ferro! E o jantar ao lado da família, com a farofinha gostosa... Pois é, eu vim do sertão de Caetité, sudoeste da Bahia, onde a cultura baiana se mistura com a mineira e a gente come pequi e doce de buriti. Eu vim de uma casa abastada, onde a fartura de comida e guloseimas era enorme e cresci como menina cheia de vontade!
Mas vim para a capital. Eu era universitária e, por força das circunstâncias, fui morar em um pensionato no centro da cidade do Salvador, na Mouraria. Houve, naquela ocasião, uma crise no fornecimento de carne e formavam-se, desde a madrugada, filas enormes nas portas dos açougues. E, não sei se pelo pouco tempo entre o comprar e carne e o seu preparo, muitas vezes a mesma era servida apenas aferventada, com aquele cheiro horrível! Eu, menina mimada, me levantava da mesa e me recusava a comer aquela coisa que me causava náuseas! E isso a gente nunca esquece... Isso a gente carrega pelos caminhos, arquivado em nossa mente e, vez em quando, vem à tona através de um cheiro, uma visão, um tropeço.
São as marcas que a vida nos faz e ainda não conseguimos superar. Mesmo porque, através delas, aproveitando cada lição que nos lembram, crescemos. Trabalhamos nossa tolerância, nossos limites e buscamos nos tornar pessoas mais simples e aceitar melhor as circunstâncias da vida! E é nesse aprendizado que nos melhoramos e compreendemos que somos seres na escola, que cada dia é uma lição e que nunca vai parar se não nos corrigirmos e resolvermos evoluir de verdade.
Portanto, olhemos o passado apenas como a lição de ontem e vivamos o hoje com as devidas modificações para que, amanhã, só sintamos o cheiro das alegrias e dos momentos de felicidade.

LUZMAR OLIVEIRA - Do livro Por Amor

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