Saudade é ter a consciência de que sabe o que é a
felicidade
E naquelas noites sem luz a gente se sentava nas calçadas e, além
de olhar as estrelas (em Caetité elas são mais numerosas, mais brilhantes e
muito mais lindas!), a gente cantava. Tiabinha, a nossa querida Núbia, apanhava
o violão e tocava a única música que sabia: India!
Êta que era porreta demais!
Ali no meio fio, ela, eu, Zai, Vera Periquito e Cinha. Eram canções,
causos, brincadeiras e muitas risadas! Isso é que era felicidade,
despreocupação, adolescência abençoada!
Na rua a meninada correndo e se divertindo. De quando em vez
passava um carro. Tempo morto, parado... era a nossa Caetité dos anos sessenta,
quando tinha poucos habitantes e quase carro nenhum... La dentro da casa de Tiabinha, sob a luz do
“Aladim”, Mãe Zé e um grupo jogava buraco. Em frente à minha casa, várias
cadeiras e um gostoso bate papo em família. Pois é, era o tempo das “casas
simples com cadeiras nas calçadas”... Um
tempo em que se chupava umbu no pé, se subia nas mangueiras e goiabeiras e a
vida era mais simples e melhor. Corte no pé ou no dedo se curava com mercúrio
cromo e resfriado com chá de limão ou erva cidreira. Em todas as casas tinha
hortas e mamoeiros e uma latada de chuchu. Ah! E um jardim com lindas plantas e
as nossas mães costumavam “trocar mudas” das mais bonitas.
E quando havia luz, alguém colocava um disco de Waldik Soriano e
alegrava a nossa noite. Pois é, “em
terra de cego quem tem olho é rei”... e ali não podia ser diferente! Terra de
Waldik, todos ouvem Waldik! E com muito orgulho! Mas também ouvíamos Nelson, Altemar,
Ângela Maria, Roberto Carlos... e eu, claro, sempre fã incondicional e o sou
até hoje, de Elis e Rita Pavone.
E nessa deixa de luz e música, havia as festinhas caseiras.
Tiabinha era a que mais as fazia! Eram bastante divertidas! Imaginem que ela
era tão chegada a isso que, quando eu estudava em Goiânia, pediu a minha mãe e
fez festa lá em casa! Mesmo na minha ausência! Pode? Ela tinha carta branca com
meus velhos que sempre lhe quiseram muito bem e ela a eles. Em nossa terra era
assim mesmo, as famílias se misturavam, amigos viravam parentes e o amor só
aumentava! As amizades cresciam e se tornaram “para sempre”!
É por isso que existe esse aro de energia entre os velhos e novos
caetiteenses. Crescemos assim. Aprendemos assim. Tornamo-nos assim. Há um “que”
de cumplicidade entre nós. Uma magia que adquirimos naquela serra maravilhosa.
Quando nos banhamos e sorvemos a sua agua, respiramos o seu ar, aprendemos em suas
escolas e adquirimos a nobreza do seu povo tão ilustre e histórico. Naquela
vila com algumas centenas de anos de existência e com um “norral” de fazer
inveja a qualquer outra cidade. Uma
cidade que hoje cresce com uma velocidade incrível e carrega, dentre os seus
diversos títulos, o de ser linda, limpa e progressista.
“Caetité, seu nome é nobre como nobre é a sua gente”, escreveu dona
Emiliana Nogueira Pita, uma mestra brilhante que ali deixou seu rastro de luz!
“Caetité, pequenina e ilustre”, foi o jargão criado por outra
mestra igualmente fulgente, dona Helena Rodrigues Lima.
Hoje, já não pequenina, mas cada vez mais ilustre, nossa cidade tem
um lugar de destaque no Estado da Bahia e enverga títulos e mais títulos
alegrando e envaidecendo cada vez mais os nossos corações apaixonados e
bairristas!
E no quintal da minha casa, onde proliferavam mamoeiros, cantava o
Sabiá Laranjeira bicando seus frutos maduros e nos encantando com sua beleza!
Saudade é coisa de quem conheceu e incorporou a felicidade em si!
Que a recolheu das lembranças e a fez viva em seu coração e grita aos quatro
ventos que teve uma infância e adolescência maravilhosas e que, por havê-las
vivido com intensidade, é feliz pelo resto da vida!
Felicidade é saber que dividiu a vida em duas etapas, mas que ambas
valeram a pena!
Saudade é ter a consciência de que sabe o que é a felicidade!
Luzmar Oliveira
Em 19.09.13
Foto de Luiz Benevides

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