CAETITÉ... ETERNAMENTE NOSSA
O girar das moendas me encantava. Era o engenho de
cana do Sr. Filinto, amigo do meu pai. Ficava lá no Barro Preto, na estrada do
aeroporto. Costumávamos frequenta-lo para comer o melaço quente e tomar a
garapa de cana. A gente raspava a cana e a enfiava no tacho de rapadura e a
mesma vinha com aquela coisa deliciosa grudada. E ali admirávamos aquela gente
simples que fazia a rapadura artesanalmente. Era uma boa estirada da cidade até
lá, mas sempre valia a pena. Uma família simpática e acolhedora que nos ofertava
o melhor que tinha.
Assim era a nossa Caetité. Todos se conheciam e eram
amigos. Onde chegávamos, éramos muito bem recebidos o que fazia com que mais
parecêssemos aparentados.
O engraçado dessa estrada do Barro Preto é que nela
sempre circulava um camarada mais conhecido como “Beto doido” que costumava
assustar as pessoas e até correr atrás delas. Êta que isso dava medo! Então só
andávamos por ali em turma.
E por falar em doidos, ontem conversávamos no café de
Sônia Novais sobre eles e o fato de haver tantos naquela cidade. De onde vinham
mesmo? Ou será que eram naturais de lá? E o que fazia com que ficassem daquele
jeito? Várias teorias foram explicadas, mas a minha é de que já era efeito do
urânio que ainda não sabíamos haver ali. Ou será que estou errada e o motivo é
o alto QI daquele povo? É... sabe-se que o Caetiteense é mais inteligente que o
normal... e vai ver esses doidos ficaram mais doidos por causa dessa coisa ai.
Será? Mas eu sei que existem muitas outras teorias. E talvez o fato de, naquela
época, não se ter o que fazer naquele lugar pequeno e distante, levava os
jovens e crianças a “endoidar” ainda mais o que já era “doido”! Ou também o
fato do ensino ser tão “puxado”, os professores tão exigentes, tenha
contribuído para tal. Mas vou parar por aqui, pois de tanto falar nisso já
estou confusa e tendendo a ficar lelé também.
Hoje a loucura de lá é outra. Com o advento do
urânio, do ferro e de outras preciosidades, o que enlouquece o povo é o “vil
metal” que corre solto. A vida ficou cara e nada mais é vendido “a preço de
banana” (se bem que banana já está “a peso de ouro”). E com a falta de agua
então... Valha-me Deus e Nossa Senhora! Mas uma coisa é certa: o índice de
desemprego praticamente zerou! Dai já não sei mais como explicar a nova loucura!
Mas tem uma outra loucura que sempre acometeu e vai
acometer os que ali nasceram ou se fizeram adotar: O amor! Ah! O amor! O amor
pela cidade serrana, pelas histórias ali vividas, pelos amigos ali
conquistados, por tudo que se fez ou se deixou de fazer!
Pelos passeios nas fazendas vizinhas, pelas festas em
casas de amigos, pelos momentos na praça, pelas noites dançantes no Clube
Social, pelos bailes maravilhosos do Baraúna Tênis Clube... Por todos os
momentos que fizemos acontecer quando lá vivemos.
Caetité! A terra mãe da educação de todos que lá
estudaram e se fizeram professores também. A terra cheia de pensionatos que
abrigavam os jovens das cidades vizinhas. A terra da tradição, das figuras
ilustres. O baronato, o bispado, o seminário, o colégio de freiras... A
primeira em tantas e tantas coisas!
Caetité de João Antônio Gumes, o jornalista, poeta e
romancista. O que no século dezenove criou o Jornal A Penna e fundou o Centro
Pschyco de Caetité, que hoje é o Centro Espírita Aristides Spínola. Caetité de
Aristides Spínola, de Cezar Zama, de Joaquim Manoel Rodrigues Lima, de Plínio
de Lima, de Anísio Teixeira, de Afrânio Peixoto, de Waldik Soriano e de tantos
e tantos nomes!
Caetité de todos nós, seus filhos menores, mas
igualmente apaixonados por ela! Paixão mista de uma loucura que não se explica,
que não se cura, que nunca se acaba!
Caetité... eternamente nossa, eternamente bela,
eternamente lembrada por todas as suas histórias e estórias imortalizadas em
inúmeras páginas e memórias!
Luzmar Oliveira.
Foto de Luiz Benevides Benevides (fazendo rapadura)

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