Elis Regina - FASCINAÇÃO

domingo, 4 de agosto de 2013


                   OBRIGADA CAETITÉ

Ninguém diria que pessoas, aparentemente quietas, aprontassem tanto!
Conversando com velhas amigas em Caetité, contaram-me episódios hilários das suas vidas. Imaginem umas “donzelas” de boa família desfilando pelas ruas, travestidas de homem. Engraçado, não é? Pois bem, na década de sessenta costumava faltar luz e, aproveitando a escuridão, um grupinho do final da Rua Barão vestia as roupas do pai ou do irmão e saia a paquerar e curtir com a cara de todos, que acreditavam tratar-se de rapazes e lhes davam crédito. Com um cigarro no queixo, gestos estudados, voz grossa, divertiam-se com seu teatro (ou comédia), fazendo a sua própria história. Uma delas ainda me contou que tinha um namorado e que a família de ambos não aceitava o fato. Então saltava janela, muro ou qualquer outra barreira que viesse para viver aquilo que considerava “um grande amor”!
São lembranças da nossa vida, da nossa juventude que o tempo levou.
Eram serenatas cantadas por grupos em bancos do jardim ou no meio fio em frente a nossa casa. Ou rodas de “buraco” à luz do Aladim ou até de velas. 
Eram horas olhando o céu para descobrir os tais satélites artificiais lançados pelos americanos e russos e que estavam na moda por serem novidade. E olhávamos para o alto com admiração e encantamento, pois parece que, naquela época, havia muito mais estrelas do que hoje. Era mais límpido, mais brilhante e encantador. Descobríamos as Tres Marias, e o Cruzeiro do Sul, as constelações mais conhecidas. E se havia lua cheia então, nossa alegria era ainda maior! E buscávamos as músicas que falam do nosso satélite natural como de uma musa maravilhosa. 
Aquelas noites eram diferentes e especiais. Quando fui estudar em Goiânia costumava ficar na varanda do fundo de casa com Meire e Sonia, minhas sobrinhas, admirando o céu e sentindo saudades da nossa terra. Havia aquela música guarânia que falava das noites do Paraguai. E fazíamos a nossa versão dizendo “noites formosas de Caetité”! E o peito doía de saudades!
Hoje, tanto tempo depois, a saudade ainda incomoda. Por mais que tenhamos vivido, conhecido lugares diferentes e lindos, por mais que tenhamos tido momentos intensos e felizes pela vida afora, as lembranças da infância e adolescência ainda afagam a alma e trazem recordações que provam que ali a vida, a felicidade, a alegria eram diferentes e muito mais naturais, espontâneas. Lá deixamos nossas raízes e espalhamos sementes que cresceram, floresceram e frutificaram em nós mesmos... mas também ficaram um pouco lá e nos atraem de tal forma que, vez em quando, precisamos pisar novamente aquele solo e rever os contornos do seu horizonte magnetizador. Precisamos voltar a respirar o seu ar serrano. Precisamos olhar para a igreja que nos deu a primeira eucaristia. Precisamos rever pessoas a quem sempre amamos. Precisamos matar a saudade e traze-la novamente no bolso. 
Somos Caetiteenses. Somos filhos de uma terra que transpira amor. Somos originais das serras, do frio que anda tão raro, da água que está secando, das ruas que se modificaram e multiplicaram. Do colégio que já não é único. Das festas do clube da praça que já não existe. Das festas do Barauna. Dos desfiles da Primavera e do Dois de Julho. Dos doidos que ficavam cada vez mais doidos com nossa pirraça. Dos romeiros de Bom Jesus da Lapa que ainda se benzem na Catedral de Santana. Do Teatro Centenário tão barbaramente derrubado. Do cinema de Maria Pinho. Da sorveteria de Dominguinho. Da Bela Vista de “Padim João”. Do Bar Moreira. Da Loja das Meninas. Das tangerinas doces da feira velha. Do Padre Osvaldo. De “Tõe Piscucim”. De “Cumpade” narrando enterro. Das rurais de Lelinho e Fiim e dos calhambeques de Osvaldo Melo. Das fogueiras do São João... da nossa infância que já se foi e da adolescência mais que feliz!
Luzmar Oliveira
Foto de Luiz Benevides Benevides

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