...SE ALMA NÃO É PEQUENA...
Parece que foi ontem e, no entanto, já se passaram
décadas! As ruas eram outras e até o clima era mais frio. O povo também mudou.
Tudo cresceu, se esparramou e até as paisagens mudaram. Ficou mais bonito, mais
limpo, mas calçado, mais civilizado. Enfim, cresceu! Maturou!
Naquele dia de São Cristóvão estava quase nevando;
a neblina era tão intensa que encobria a cidade pela manhã. À tarde fomos para
a carreata, pois o Santo é padroeiro dos motoristas e eles lhe prestavam
homenagem. Entrei na Rural com Fiim dirigindo e seguimos o desfile lentamente
pelas ruas da cidade. Quando, em frente ao antigo Hotel Brasil, sentimos aquele
cheiro de queimado. Era a embreagem que não estava mais aguentando as paradas,
a chamada “meia embreagem”. E tivemos que sair dali para nossa tristeza.
Saíamos da festa maravilhosa da cidade pequenina que tem no mês de julho seu
ponto alto! A festa de São Cristóvão que antecede a comemoração magna: A de
Santana, Padroeira da Cidade!
Hoje estou aqui de novo, mas não há mais Rural e
nem Fiim. Há carreata, festas e mais festas... e são todas lindas! Uma alegria
que faz parte do povo daqui e que inebria qualquer visitante, mesmo o
desavisado que aparece de última hora.
Não faz frio, que pena! Quero sentir aquele pingente
gelado na ponta do nariz, quero vestir casaco grosso, colocar meias e cruzar os
braços dizendo: Estou congelando! E ter o prazer de estar na minha
adolescência, com os mesmos amigos passeando na praça e sorrindo muito.
Quero ver o “Gostosão” vendendo “douce de leite”,
“douce de buriti” e tantas outras guloseimas. Queria chupar os pirulitos
caseiros enfiados na tábua. Comer pipocas, quebra-queixo, coco queimado...
Quero tomar carreira de Niza doida ou de Pequena,
descer a Dois de Julho correndo de braços abertos, ver meu pai soltando
foguetes e rir de alegria descontraidamente.
Quero não ter contas a pagar, não botar gasolina
no carro, não ter chefe, não pegar engarrafamentos e acordar com a voz da minha
mãe! Quero botar a saia azul marinho plissada, a blusa ‘volta ao mundo’ branca,
sapatos e meias pretos e ir para a escola. Quero ter aula de inglês, francês e
latim. Quero comer doce de batata na cantina de Veneranda... Quero dançar ao
som dos Tártaros... Quero...
Mas tudo mudou. Não há mais nada disso. Levaram os
bancos da praça e jogaram asfalto sobre as pedras. Gostosão já se foi. Meus
pais também e mais um monte de pessoas que estavam aqui. E eu cresci (só um
pouco, mas cresci). O tempo passou e a cidade agora é outra. Há barracas com
churrasco, carros importados, gente diferente. Até o clima mudou! E eu também
mudei.
Ficou a saudade. Ficaram as lembranças de uma
época em que as pessoas se visitavam para um café, em que as famílias se
conheciam e trocavam receitas e pedaços de bolo, em que havia as comadres quase
irmãs. Em que o fio do bigode de um homem valia mais que seu nome assinado num
papel. Em que havia frutas e hortas em cada quintal e ovos frescos no
galinheiro. O tempo da simplicidade e da radiola de pilha, o maravilhoso tempo
da minha infância e adolescência!
Que seja bem vindo o progresso, a era da
comunicação à velocidade da luz! Que seja bem vinda a beleza das luzes
coloridas que enfeitam as ruas. Que seja bem vindo o novo! E a saudade também,
pois ela é simplesmente a constatação, a prova cabal de que a vida passou...
mas valeu a pena!
Luzmar Oliveira.
Foto de Luiz Benevides.

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