Elis Regina - FASCINAÇÃO

sábado, 13 de julho de 2013



PALMILHANDO AS LEMBRANÇAS DE UMA ADOLESCENTE

Marcelo e Marcia Pinho brincavam de bola na varanda da sua casa na Praça da Catedral e eu e Fiim também na varanda da nossa casa na 2 de Julho. E conversávamos. Da janela do meu quarto falava com Glorinha que estava na janela do sobradinho na Praça. E ao chegar à esquina de “seo” Zuza uma amiga que estava no outro extremo da Praça falava e eu respondia. Não havia ainda telefone e nem se sonhava com celular. Mas havia a comunicação através do grito carinhoso entre amigos. Esse foi o meu tempo. O tempo da minha geração que viveu e cresceu em Caetité.
Atravesso a praça e entro na loja de dona Nenzinha Gumes ou na de “seo” Jacó. E se não encontro o que procuro, ainda tenho uma meia dúzia de lojas a percorrer. Um comercio diminuto e simples. Pouco a escolher. Mas não sei por que não sentíamos falta de nada. Sempre tínhamos a roupa nova da festa, o sapato bonito que queríamos, o perfume, a bijuteria. Pouca coisa que dava para todo mundo. Essa era a nossa cidade dos anos sessenta.
Em casa, um rádio a pilha. Um toca disco a pilha. Um monte de LPs ou 78RPM. Revistas em quadrinhos com fotonovelas importadas ao invés de novelas da TV. Gibis no lugar do desenho animado. E bolas de gude, dados, petecas, jogo de botões, baralhos, dominós e pega varetas antecederam os games. Corríamos pelas ruas e subíamos em árvores e muros com a mesma facilidade com que hoje as crianças andam de elevador e escadas rolantes. Só o que não mudou foram as bicicletas. Apenas ficaram mais leves e bonitas. Mas, por incrível que pareça, nenhuma delas é mais bonita que a minha NB aro 12 que ganhei ao passar do primeiro para o segundo ano primário. Era linda!
Não havia energia elétrica o dia todo até meados da década de sessenta. Mas não sentíamos falta. Nem quando o motor da Usina que fornecia luz para a cidade quebrava. Acendíamos o fifó, o placa, o Aladim, a vela... e curtíamos do mesmo jeito, pois não precisava de luz para jogar Tico-tico e nem brincar de Pedra Lisa e Picula. Andávamos em turma e essa turma era formada por vizinhos que compartilhavam tudo! Desde os coquinhos Licuri  até os gomos de Laranja Tanja. Eu andava com os bolsos cheios de caramelos e os distribuía para quem quisesse, e eram muitos!
Quando chegou a “energia hidráulica” vinda de Correntina... meu Deus! Era um tal de subir nos postes de cimento (eles tinham buracos que facilitavam a escalada), de olhar as lâmpadas de mercúrio com seu brilho azulado... era só encantamento! E com ela vieram os liquidificadores, as radiolas elétricas com rádio embutido (dois em um)... era o progresso e como era bonito tudo aquilo! Meu pai logo substituiu a geladeira a querosene por uma Gelomatic elétrica lindona! Que alegria! Minha mãe não se aguentava e queria ainda mais. Trocou-se o aquecedor de agua (que era tipo caldeira a vapor com uma turbina que passava pelo fogão a lenha) pelo chuveiro elétrico. E a gente olhava aquela parafernália e ficava encantada! Poxa, agora estamos nos civilizando! Era o mundo novo!
E as coisas andaram mais rápido. E as novidades chegavam aos montes. A feira mudou de lugar, o Banco do Brasil também, e o prefeito construiu uma avenida. Abriu-se o hospital. Chegou o telefone (daqueles pretos enormes e sem os discos. Tínhamos que ligar para a Central onde havia uma mesa cheia de fios para completar as ligações). Dominguinhos correu a montar a Sorveteria Primavera que prometia (e cumpriu a promessa) ser um paraiso! Estávamos em uma cidade em pleno desenvolvimento e isso nos deixava orgulhosos e felizes.
Essa era a nossa Caetité, a nossa adolescência, a nossa vida. Onde os melhores amigos eram os vizinhos, os colegas da escola, os primos e irmãos. Onde as diversões nos exercitavam e deixavam marcas de queimaduras, de quedas, de topadas, mas também deixaram marcas de sorrisos e alegrias que hoje se chamam saudade. Das quedas ficaram as cicatrizes que ostentamos como troféus de pequenos atletas da vida de uma cidade pequena e amiga. E ainda corremos para as festas que agora são tão diferentes na esperança de vermos o que sobrou das paisagens da nossa vida. Encaramos as imagens da Catedral de Santana e ainda as vemos lindas como nas procissões de antigamente. Ouvimos os sinos badalarem e esperamos que anunciem as missas domingueiras. E abrimos a janela para sentir o vento frio entrando pelas narinas e ouvimos a voz da nossa mãe nos chamando para o café, pois as aulas começam daqui a pouco. Isso é mais que lembrança, mais que saudade! É a prova cabal que vivemos e que somos felizes graças à felicidade que aprendemos em Caetité!

Luzmar Oliveira




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