PALMILHANDO AS LEMBRANÇAS DE UMA ADOLESCENTE
Marcelo
e Marcia Pinho brincavam de bola na varanda da sua casa na Praça da Catedral e
eu e Fiim também na varanda da nossa casa na 2 de Julho. E conversávamos. Da
janela do meu quarto falava com Glorinha que estava na janela do sobradinho na
Praça. E ao chegar à esquina de “seo” Zuza uma amiga que estava no outro
extremo da Praça falava e eu respondia. Não havia ainda telefone e nem se
sonhava com celular. Mas havia a comunicação através do grito carinhoso entre amigos.
Esse foi o meu tempo. O tempo da minha geração que viveu e cresceu em Caetité.
Atravesso
a praça e entro na loja de dona Nenzinha Gumes ou na de “seo” Jacó. E se não
encontro o que procuro, ainda tenho uma meia dúzia de lojas a percorrer. Um
comercio diminuto e simples. Pouco a escolher. Mas não sei por que não
sentíamos falta de nada. Sempre tínhamos a roupa nova da festa, o sapato bonito
que queríamos, o perfume, a bijuteria. Pouca coisa que dava para todo mundo.
Essa era a nossa cidade dos anos sessenta.
Em
casa, um rádio a pilha. Um toca disco a pilha. Um monte de LPs ou 78RPM.
Revistas em quadrinhos com fotonovelas importadas ao invés de novelas da TV.
Gibis no lugar do desenho animado. E bolas de gude, dados, petecas, jogo de
botões, baralhos, dominós e pega varetas antecederam os games. Corríamos pelas
ruas e subíamos em árvores e muros com a mesma facilidade com que hoje as
crianças andam de elevador e escadas rolantes. Só o que não mudou foram as
bicicletas. Apenas ficaram mais leves e bonitas. Mas, por incrível que pareça,
nenhuma delas é mais bonita que a minha NB aro 12 que ganhei ao passar do
primeiro para o segundo ano primário. Era linda!
Não
havia energia elétrica o dia todo até meados da década de sessenta. Mas não
sentíamos falta. Nem quando o motor da Usina que fornecia luz para a cidade
quebrava. Acendíamos o fifó, o placa, o Aladim, a vela... e curtíamos do mesmo
jeito, pois não precisava de luz para jogar Tico-tico e nem brincar de Pedra
Lisa e Picula. Andávamos em turma e essa turma era formada por vizinhos que
compartilhavam tudo! Desde os coquinhos Licuri até os gomos de Laranja Tanja. Eu andava com
os bolsos cheios de caramelos e os distribuía para quem quisesse, e eram
muitos!
Quando
chegou a “energia hidráulica” vinda de Correntina... meu Deus! Era um tal de
subir nos postes de cimento (eles tinham buracos que facilitavam a escalada),
de olhar as lâmpadas de mercúrio com seu brilho azulado... era só encantamento!
E com ela vieram os liquidificadores, as radiolas elétricas com rádio embutido
(dois em um)... era o progresso e como era bonito tudo aquilo! Meu pai logo
substituiu a geladeira a querosene por uma Gelomatic elétrica lindona! Que
alegria! Minha mãe não se aguentava e queria ainda mais. Trocou-se o aquecedor
de agua (que era tipo caldeira a vapor com uma turbina que passava pelo fogão a
lenha) pelo chuveiro elétrico. E a gente olhava aquela parafernália e ficava encantada!
Poxa, agora estamos nos civilizando! Era o mundo novo!
E
as coisas andaram mais rápido. E as novidades chegavam aos montes. A feira
mudou de lugar, o Banco do Brasil também, e o prefeito construiu uma avenida.
Abriu-se o hospital. Chegou o telefone (daqueles pretos enormes e sem os
discos. Tínhamos que ligar para a Central onde havia uma mesa cheia de fios
para completar as ligações). Dominguinhos correu a montar a Sorveteria
Primavera que prometia (e cumpriu a promessa) ser um paraiso! Estávamos em uma
cidade em pleno desenvolvimento e isso nos deixava orgulhosos e felizes.
Essa
era a nossa Caetité, a nossa adolescência, a nossa vida. Onde os melhores
amigos eram os vizinhos, os colegas da escola, os primos e irmãos. Onde as
diversões nos exercitavam e deixavam marcas de queimaduras, de quedas, de
topadas, mas também deixaram marcas de sorrisos e alegrias que hoje se chamam
saudade. Das quedas ficaram as cicatrizes que ostentamos como troféus de
pequenos atletas da vida de uma cidade pequena e amiga. E ainda corremos para
as festas que agora são tão diferentes na esperança de vermos o que sobrou das
paisagens da nossa vida. Encaramos as imagens da Catedral de Santana e ainda as
vemos lindas como nas procissões de antigamente. Ouvimos os sinos badalarem e
esperamos que anunciem as missas domingueiras. E abrimos a janela para sentir o
vento frio entrando pelas narinas e ouvimos a voz da nossa mãe nos chamando
para o café, pois as aulas começam daqui a pouco. Isso é mais que lembrança,
mais que saudade! É a prova cabal que vivemos e que somos felizes graças à
felicidade que aprendemos em Caetité!
Luzmar
Oliveira

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