DIZ O POETA: PORQUE HOJE É SÁBADO!
Porque hoje é sábado, eu estou relaxada em casa, sentada no sofá
da sala e com o not no colo.
É o dia da criação, segundo a igreja.
E, apurando os sentidos, ainda ouço o badalar dos sinos que
convidam para a missa das sete. Mas essa missa não era aos sábados, era aos
domingos e, com uma roupa mais quentinha, meias finas e salto alto, eu subia a
Rua Dois de Julho para o rito católico. Meus pais faziam questão disso e, por
mais que argumentasse, eles não cediam.
E o frio, embora quase morno, me reporta àquelas manhãs em
família onde tudo era simples e bom. Uma vida de interior, com café com cheiro
de café puro, com pães frescos e aquelas delícias próprias da nossa culinária
‘baianeira’.
Abrindo as janelas víamos a cidade sob forte neblina, tudo cinza
e os parabrisas dos carros rorejados. Saindo,pois aos sábados também tínhamos
aula, estendíamos nossa mão direita e com o dedo indicador desenhávamos ou
escrevíamos nosso nome ou uma mensagem. Insistindo no olhar, mal divisávamos a
paisagem que, mais tarde, sob o sol frio do inverno que chegava precocemente,
adquiria as cores e o brilho do conhecido e amado lugar.
Raramente acontecia alguma novidade naquele recanto pequenino e
belo. Era uma cidadezinha minúscula no meio do sudoeste baiano, no sertão brabo
e distante da capital. Mas era assim mesmo um oásis de paz e cultura que nos
fazia arfar o peito e dizer “Pequenina, mas ilustre”! Escreveu a Professora
Helena Rodrigues Lima que, carregando o peso do nome ilustre, fez jus a ele e
nos derramou enorme rio de sabedoria e amor.
Esta semana li no ‘Causos de Caetité’ alguém falando
insistentemente no Professor Hélio Negreiros, aquele do terno de linho branco
impecável, o cearense mais caetiteense que conheci. Meu professor de latim:
‘Non dicimus scholae sed vitae!’ Era a primeira frase, da primeira aula de
Latim no primeiro ano de ginásio. Tradução: “Nós não aprendemos para a escola,
mas para a vida”. E com a sua voz forte e eloquente declinava o nominativo, o
dativo, o genitivo e toda aquela coisa difícil da língua morta que só era
usada, em minha cabecinha de menina de 11 anos, para celebrar missas. Mal sabia
eu que, sem conhecer as raízes do latim dificilmente entenderia o português. E
assim víamos as declinações que se confundiam em nossas mentes ainda tão
infantis. Mas hoje agradeço a Deus pelos ensinamentos recebidos naquele IEAT
cheio de professores bem intencionados e, na sua grande maioria, bem formados,
informados e eficientes. Graças a eles hoje posso rabiscar palavras e espalhar
textos com um português razoável e concatenando melhor as ideias.
Havia uma frase repetida boca a boca pelos corredores daquele
colégio: “Aluno é prego e professor é martelo” (Sorrisos). Era a nossa forma de
protesto contra as provas difíceis e as notas um tanto a desejar. Mas, mesmo
assim, levávamos tudo numa boa, festejando cada dia de vida como se tudo fosse
festa e para sempre.
E é esse ‘para sempre’ que nunca se cala em nós que vivemos os
anos dourados na Vila do Príncipe. As paredes das casas onde moramos permanecem
inteiras em nossas recordações tão povoadas pelos entes amados. Um pai zeloso e
amigo. Uma mãe que trabalhava sem cessar para que nosso lar estivesse sempre
aconchegante e a comida bem temperada e quentinha. Irmãos mais velhos e irmãos
mais novos (eu só tinha os primeiros) que eram, antes de tudo, nossos amigos e
companheiros. Sobrinhos (muitos!) e primos. E os vizinhos. E os colegas que,
além de tudo, eram amigos muito chegados com os quais dividíamos não só nossas
merendas como, e principalmente, nossos segredinhos tão entesourados.
“Hoje meus domingos são doces recordações”, canta o rei. Mas não
são só os domingos. Sãos os sábados dos carros de boi e da feira com montanhas
de tangerinas. São as segundas, terças, quartas, quintas e sextas que tanto nos
trouxeram alegrias e dores, mas que foram de uma juventude sadia e bela como as
serras da nossa região.
Hoje nós temos as lembranças para contar e comentar com carinho
e ternura. Pois que vivemos assim. E na alegria do haver sido e haver aprendido
em Caetité e na vida após Caetité, hoje nos vemos adultos, maduros e
preparando- nos para sair desta romagem terrena mais enriquecidos e sábios.
Construimos o alicerce com o aprendizado da infância e juventude e erguemos as
paredes com a maturidade e a amplitude que o ‘cá fora’ nos emprestou. É a lei
da vida e do amor. Crescer e aprender. Plantar e colher. Espalhar o bem para
que o vento possa levar aos outros o que de bom temos a lhes dar.
Porque hoje é sábado, dia sagrado à criação. Esse dogma que nos
venderam mas que é apenas simbologia, pois a criação não se fez em um dia, mas
em segundos de amor e abnegação de um Pai Maior que nos ama e nos dá sempre
novas e novas chances e oportunidades de crescimento e luz!
Mas, por hoje ser sábado, ainda estou aqui no sofá da sala da
casa onde moro. Escrevendo num teclado que transporta meus pensamentos para uma
telinha e que, após rápido processo e acesso à net, daqui a alguns minutos, os
levará a cada um de vocês meus amigos queridos. É o progresso da comunicação à
velocidade da luz! É a união de povos que está cada vez mais próxima! E, usando
o tradutor disponível no google, é a linguagem que se universaliza!
LUZMAR OLIVEIRA
Foto de Luiz Benevides.

È amiga Luzmar,que bonito seu texto,boas e agradaveis recordações não só sua,como de muitos como eu que sou também caetiteense,eu sempre dig para você,os seus textos é como se fosse real,as lembranças veem a nossa cabeça passando um filme quando começa a falar sobre Caetité nossa princesinha do sertão. Obrigada amiga, que Deus abençõe esse dom que tem de passar para o papael o que esta sentindo com tanta facilidade e sabedoria.Um beijo.
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