Elis Regina - FASCINAÇÃO

sábado, 15 de junho de 2013


DIZ O POETA: PORQUE HOJE É SÁBADO!


Porque hoje é sábado, eu estou relaxada em casa, sentada no sofá da sala e com o not no colo.
É o dia da criação, segundo a igreja.
E, apurando os sentidos, ainda ouço o badalar dos sinos que convidam para a missa das sete. Mas essa missa não era aos sábados, era aos domingos e, com uma roupa mais quentinha, meias finas e salto alto, eu subia a Rua Dois de Julho para o rito católico. Meus pais faziam questão disso e, por mais que argumentasse, eles não cediam.
E o frio, embora quase morno, me reporta àquelas manhãs em família onde tudo era simples e bom. Uma vida de interior, com café com cheiro de café puro, com pães frescos e aquelas delícias próprias da nossa culinária ‘baianeira’.
Abrindo as janelas víamos a cidade sob forte neblina, tudo cinza e os parabrisas dos carros rorejados. Saindo,pois aos sábados também tínhamos aula, estendíamos nossa mão direita e com o dedo indicador desenhávamos ou escrevíamos nosso nome ou uma mensagem. Insistindo no olhar, mal divisávamos a paisagem que, mais tarde, sob o sol frio do inverno que chegava precocemente, adquiria as cores e o brilho do conhecido e amado lugar.
Raramente acontecia alguma novidade naquele recanto pequenino e belo. Era uma cidadezinha minúscula no meio do sudoeste baiano, no sertão brabo e distante da capital. Mas era assim mesmo um oásis de paz e cultura que nos fazia arfar o peito e dizer “Pequenina, mas ilustre”! Escreveu a Professora Helena Rodrigues Lima que, carregando o peso do nome ilustre, fez jus a ele e nos derramou enorme rio de sabedoria e amor.
Esta semana li no ‘Causos de Caetité’ alguém falando insistentemente no Professor Hélio Negreiros, aquele do terno de linho branco impecável, o cearense mais caetiteense que conheci. Meu professor de latim: ‘Non dicimus scholae sed vitae!’ Era a primeira frase, da primeira aula de Latim no primeiro ano de ginásio. Tradução: “Nós não aprendemos para a escola, mas para a vida”. E com a sua voz forte e eloquente declinava o nominativo, o dativo, o genitivo e toda aquela coisa difícil da língua morta que só era usada, em minha cabecinha de menina de 11 anos, para celebrar missas. Mal sabia eu que, sem conhecer as raízes do latim dificilmente entenderia o português. E assim víamos as declinações que se confundiam em nossas mentes ainda tão infantis. Mas hoje agradeço a Deus pelos ensinamentos recebidos naquele IEAT cheio de professores bem intencionados e, na sua grande maioria, bem formados, informados e eficientes. Graças a eles hoje posso rabiscar palavras e espalhar textos com um português razoável e concatenando melhor as ideias.
Havia uma frase repetida boca a boca pelos corredores daquele colégio: “Aluno é prego e professor é martelo” (Sorrisos). Era a nossa forma de protesto contra as provas difíceis e as notas um tanto a desejar. Mas, mesmo assim, levávamos tudo numa boa, festejando cada dia de vida como se tudo fosse festa e para sempre.
E é esse ‘para sempre’ que nunca se cala em nós que vivemos os anos dourados na Vila do Príncipe. As paredes das casas onde moramos permanecem inteiras em nossas recordações tão povoadas pelos entes amados. Um pai zeloso e amigo. Uma mãe que trabalhava sem cessar para que nosso lar estivesse sempre aconchegante e a comida bem temperada e quentinha. Irmãos mais velhos e irmãos mais novos (eu só tinha os primeiros) que eram, antes de tudo, nossos amigos e companheiros. Sobrinhos (muitos!) e primos. E os vizinhos. E os colegas que, além de tudo, eram amigos muito chegados com os quais dividíamos não só nossas merendas como, e principalmente, nossos segredinhos tão entesourados.
“Hoje meus domingos são doces recordações”, canta o rei. Mas não são só os domingos. Sãos os sábados dos carros de boi e da feira com montanhas de tangerinas. São as segundas, terças, quartas, quintas e sextas que tanto nos trouxeram alegrias e dores, mas que foram de uma juventude sadia e bela como as serras da nossa região.
Hoje nós temos as lembranças para contar e comentar com carinho e ternura. Pois que vivemos assim. E na alegria do haver sido e haver aprendido em Caetité e na vida após Caetité, hoje nos vemos adultos, maduros e preparando- nos para sair desta romagem terrena mais enriquecidos e sábios. Construimos o alicerce com o aprendizado da infância e juventude e erguemos as paredes com a maturidade e a amplitude que o ‘cá fora’ nos emprestou. É a lei da vida e do amor. Crescer e aprender. Plantar e colher. Espalhar o bem para que o vento possa levar aos outros o que de bom temos a lhes dar.
Porque hoje é sábado, dia sagrado à criação. Esse dogma que nos venderam mas que é apenas simbologia, pois a criação não se fez em um dia, mas em segundos de amor e abnegação de um Pai Maior que nos ama e nos dá sempre novas e novas chances e oportunidades de crescimento e luz!
Mas, por hoje ser sábado, ainda estou aqui no sofá da sala da casa onde moro. Escrevendo num teclado que transporta meus pensamentos para uma telinha e que, após rápido processo e acesso à net, daqui a alguns minutos, os levará a cada um de vocês meus amigos queridos. É o progresso da comunicação à velocidade da luz! É a união de povos que está cada vez mais próxima! E, usando o tradutor disponível no google, é a linguagem que se universaliza!

LUZMAR OLIVEIRA
Foto de Luiz Benevides.

Um comentário:

  1. È amiga Luzmar,que bonito seu texto,boas e agradaveis recordações não só sua,como de muitos como eu que sou também caetiteense,eu sempre dig para você,os seus textos é como se fosse real,as lembranças veem a nossa cabeça passando um filme quando começa a falar sobre Caetité nossa princesinha do sertão. Obrigada amiga, que Deus abençõe esse dom que tem de passar para o papael o que esta sentindo com tanta facilidade e sabedoria.Um beijo.

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