RECORDANDO
OS DIAS CHUVOSOS DA MINHA TERRA
Chove. Chove muito. E o cheiro da terra molhada me transporta no
tempo para uma pequena cidade do sertão baiano.
Era ainda uma criança magricela, cabelos curtos e enrolados,
branquela...
Quando a chuva parava, era hora de brincar na enxurrada que
descia a Dois de Julho e trazia pedras e areia consigo. Na minha rua moravam
muitas crianças. Crianças felizes e que adoravam brincar de fazer “tapagem”
para conter as aguas que corriam para o rio que passava na entrada de Caetité.
Um pequenino riacho que, quando São Pedro abria as torneiras, se tornava um rio
para nossa alegria e diversão.
Quando tudo passava, ficavam bancos de areia que nos serviam
para jogar triângulo ou “birosca”.
Mas era bom demais! Todos corríamos para a farra e não nos
importávamos de meter a mão na terra, na lama. O importante, a lei, era ser
feliz! E éramos! Fazíamos questão de ser! O máximo que podia acontecer era um
ou outro arranhão... mas ninguém se importava e nem nossos pais se preocupavam
com isso. Era todo mundo uma família só, a família da Dois de Julho!
E assim acontecia nas outras ruas da nossa pequena e
aconchegante Vila Nova do Príncipe! Alguns preferiam passear com as bicicletas
nas águas e vê-las respingando com fulgor!
Passar a chuva vendo TV? Computador? Nada disso! Não havia essas
coisas por lá. Aliás, os PCs ainda nem tinham sido inventados e a TV só chegou
anos depois! O que fazíamos era aproveitar folhas de papel dos velhos cadernos
ou das revistas “O Cruzeiro”, “Fatos e Fotos” e “Manchete” e com eles fazer
barquinhos para que deslizassem rua abaixo! E os acompanhávamos pulando e
batendo palmas, encantados com o brinquedo feito de dobradura e mágico aos
nossos lindos olhos infantis!
Depois um banho quente (em minha casa havia um “torpedo”
acoplado ao fogão de lenha, que aquecia a água) do torpedo ou o chamado “banho
de cuia” e aquela roupinha quentinha (o inverno de lá era gelado!!!)... e o
papo com os amigos. Quem tinha irmãos da mesma faixa etária, se divertia com
eles. Os meus eram muito mais velhos, então recorria aos amigos que eram
muitos!
À noite, se estiasse, correr na rua brincando de picula, pedra
lisa, roda, peteca, corda... e tantos outros modos de diversão que nos aquecia
o corpo e a alma! Se chovesse, enquanto a mãe e as irmãs ouviam a novela no
rádio, nos sentávamos em torno da mesa para desenhar. Ai Fiim me ensinava a
fazer o escudo do Vasco! Oneide colocava alguém em sua frente e, com a ponta do
lápis, fazia um retrato perfeito! Meu pai rascunhava plantas de casa (sua
paixão).
Dormíamos cedo. Luz de motor que desligava às 21 ou 22horas...
para acordarmos com neblina e aquela chuvinha gelada. Fardados (saia plissada
azul marinho, blusa branca de mangas curtas, sapato e meias pretas e um grosso
agasalho), íamos para a escola. Eta ventinho frio! Mas, por mais que fôssemos
sonados, íamos felizes, pois, lá na escola, a vida continuava e os professores
ensinavam de verdade! E os colegas eram quase irmãos de tanto que eram amigos!
Ah... tempo de felicidade e alegria. Passou. Não há mais nada
igual. Nem lá e nem em lugar nenhum. Mas quem viveu ali tem, dentro de si, uma
riqueza fantástica em lembranças e amizades que não morreram e não morrem
jamais!
Um abraço, Caetité! E minha eterna gratidão pelo berço que
emprestaste a mim. Um abraço meus amigos que tanto me fizeram e fazem feliz!
Luzmar Oliveira
20ab2013

Nenhum comentário:
Postar um comentário