Elis Regina - FASCINAÇÃO

domingo, 5 de agosto de 2018

LEMBRANÇAS FELIZES




Acordei hoje com uma saudade gostosa, daquelas que não nos fazem sofrer e nem trazem qualquer tipo de arrependimento. Saudades do que vivi e do que valeu a pena ter vivido. Saudades daquela casa na Rua Dois de Julho, onde passei minha meninice e adolescência... onde acordei tantas e tantas vezes, com o cheirinho de café quentinho e chimango passado. Onde abria a janela e enxergava o enorme quintal da nossa casa, que mais parecia um sítio de tão grande que era, e com tantas frutas e hortaliças que enchia nossos olhos de prazer e fome.

Hoje acordei me lembrando da voz da minha mãe, que do pé da escada, me chamava dizendo que se não me apressasse, perderia a primeira aula. E rapidinho me banhava, vestia a farda e descia para fazer a primeira refeição do dia em família. A família, tão enorme, naqueles tempos se reduziu a nos três: meu pai, minha mãe e eu, caçula de nove filhos. Os outros estavam casados. Um já havia desencarnado. E Fiim, embora ainda solteiro, estava numa boleia de caminhão rodando o Mundo.

Como sempre no mês de agosto, o frio da minha terra costumava ir-se retirando aos poucos. Pela manhã o sol aparecia ainda meio tímido, aumentando seu brilho e calor no decorrer do dia. Mas as noites continuavam frias. Aos domingos costumávamos, católicos que éramos, ir à missa logo cedo. Depois era aproveitar o dia. Papinhos com os amigos e almoço em família. E eu, formiguinha assumida, comia rapidinho para mergulhar nas deliciosas sobremesas, que eram sempre fartas e diversas em nossa casa! Ah! Como foi bom viver tudo aquilo e hoje ter o que recordar! Meu pai à cabeceira da mesa e a família ao redor. Ele começava a se servir, para depois nós o fazermos. Havia respeito e disciplina. Mas nada era forçado e nem desagradável, era prazeroso até. Fomos educados para sermos educados. Para termos respeito pelos mais velhos. Para obedecermos aos nossos pais e mestres. E éramos felizes assim. A reciprocidade desse amor nos acolhia e nos sentíamos protegidos.

À tarde as crianças podiam optar pelas matinês do Cine Vitória ou do Cine Caetité. E à noite as jovens e adultas passeavam de braços dados, enquanto os rapazes, aos grupos, se postavam nos recostos dos bancos, ou ficavam de pé observando e paquerando. Os namorados se abraçavam nos bancos na parte mais baixa do jardim. Alguns preferiam ir ao cinema. Outros ligavam a vitrola na sala de casa e, convidando amigos, dançavam alegremente. Quase ninguém bebia mas, mesmo de “cara limpa”, a alegria reinava solta! E a gente sabia curtir de verdade aqueles momentos.

Tudo que a gente realmente tinha obrigação de fazer, era tirar boas notas, passar de ano e ajudar nas pequenas tarefas domésticas. Tudo o mais era com nossos pais. E eles faziam questão absoluta de dar seu exemplo!

Éramos então uma comunidade pequena. Ruas antigas e estreitas, pouco movimento, poucas distrações, mas um povo orgulhoso da sua origem. Uma cidadezinha do sertão onde a Educação brilhava, sendo polo de referência em todo o Estado da Bahia. Por ali circulavam estudantes vindos de muitas cidades, às vezes distantes, que buscavam seu diploma de professor primário. Que cursavam o Científico, na intenção de prestar um vestibular na capital e ter uma profissão de médico, engenheiro, advogado... e tantas outras sonhadas então. Muitas famílias se mudavam para estar perto dos seus filhos estudantes, alugando casas para formar pensionatos. E os sonhos se espalhavam! A cidade das tradições, o Baronato remanescente do Império, era então uma cidade de jovens guerreiros que buscavam um futuro melhor. E a Vila Nova do Príncipe era um ninho acolhedor! Seus moradores casuais acabavam apaixonando-se pela sua água e clima, pelos seus moradores... e tornavam-se caetiteenses de corpo e alma. Como o são até hoje.

Com o zunido dos carros de bois, o gosto das tangerinas da feira, o sabor açucarado do mel de engenho e suas rapaduras maravilhosas, o suco da manga madura escorrendo pelo canto da boca, as negras e deliciosas jabuticabas buscadas nos pés, as melancias com sua vermelhidão deliciosa, o quebrar dos coquinhos Licuri com uma pedra ou o colar deles sequinhos, comprados na feira, a magia dos pés de umbu, as mangabas colhidas na Passagem da Pedra... são recordações saborosas que só acrescentam poesia e alegria às nossas reminiscências! Lembranças de tudo que valeu a pena ter vivido! Acréscimos à nossa história, histórias para contar, contos a escrever, escritas que dividimos com os amigos que sentem a mesma saudade que nós.

Não é saudosismo, pois não estamos presos na gaiola do passado. É saudade! É lembrança! É saber que valeu a pena cada noite mal dormida estudando. É ter a certeza de que estivemos no caminho certo, que tivemos uma família que nos colocou na estrada do bem, que namoramos no tempo de namorar e fomos muito felizes. E de que fizemos amizades que, tanto tempo depois, ainda conservamos e nos juntamos para celebrar.

E estas lembranças tornam-nos a vida mais feliz. Podemos dividi-las com filhos e netos. Podemos dividi-las com o Mundo inteiro! Podemos até eterniza-las em livros que, quando voltarmos para o nosso verdadeiro lar, nos farão eternos, imortais!

Luzmar Oliveira

Salvador, 05ago18

Nenhum comentário:

Postar um comentário