LEMBRANÇAS FELIZES
Acordei hoje com uma saudade gostosa, daquelas que não nos
fazem sofrer e nem trazem qualquer tipo de arrependimento. Saudades do que vivi
e do que valeu a pena ter vivido. Saudades daquela casa na Rua Dois de Julho,
onde passei minha meninice e adolescência... onde acordei tantas e tantas
vezes, com o cheirinho de café quentinho e chimango passado. Onde abria a
janela e enxergava o enorme quintal da nossa casa, que mais parecia um sítio de
tão grande que era, e com tantas frutas e hortaliças que enchia nossos olhos de
prazer e fome.
Hoje acordei me lembrando da voz da minha mãe, que do pé da
escada, me chamava dizendo que se não me apressasse, perderia a primeira aula.
E rapidinho me banhava, vestia a farda e descia para fazer a primeira refeição
do dia em família. A família, tão enorme, naqueles tempos se reduziu a nos três:
meu pai, minha mãe e eu, caçula de nove filhos. Os outros estavam casados. Um
já havia desencarnado. E Fiim, embora ainda solteiro, estava numa boleia de
caminhão rodando o Mundo.
Como sempre no mês de agosto, o frio da minha terra costumava
ir-se retirando aos poucos. Pela manhã o sol aparecia ainda meio tímido,
aumentando seu brilho e calor no decorrer do dia. Mas as noites continuavam
frias. Aos domingos costumávamos, católicos que éramos, ir à missa logo cedo.
Depois era aproveitar o dia. Papinhos com os amigos e almoço em família. E eu,
formiguinha assumida, comia rapidinho para mergulhar nas deliciosas sobremesas,
que eram sempre fartas e diversas em nossa casa! Ah! Como foi bom viver tudo
aquilo e hoje ter o que recordar! Meu pai à cabeceira da mesa e a família ao
redor. Ele começava a se servir, para depois nós o fazermos. Havia respeito e
disciplina. Mas nada era forçado e nem desagradável, era prazeroso até. Fomos
educados para sermos educados. Para termos respeito pelos mais velhos. Para
obedecermos aos nossos pais e mestres. E éramos felizes assim. A reciprocidade
desse amor nos acolhia e nos sentíamos protegidos.
À tarde as crianças podiam optar pelas matinês do Cine
Vitória ou do Cine Caetité. E à noite as jovens e adultas passeavam de braços
dados, enquanto os rapazes, aos grupos, se postavam nos recostos dos bancos, ou
ficavam de pé observando e paquerando. Os namorados se abraçavam nos bancos na
parte mais baixa do jardim. Alguns preferiam ir ao cinema. Outros ligavam a
vitrola na sala de casa e, convidando amigos, dançavam alegremente. Quase
ninguém bebia mas, mesmo de “cara limpa”, a alegria reinava solta! E a gente
sabia curtir de verdade aqueles momentos.
Tudo que a gente realmente tinha obrigação de fazer, era
tirar boas notas, passar de ano e ajudar nas pequenas tarefas domésticas. Tudo
o mais era com nossos pais. E eles faziam questão absoluta de dar seu exemplo!
Éramos então uma comunidade pequena. Ruas antigas e
estreitas, pouco movimento, poucas distrações, mas um povo orgulhoso da sua
origem. Uma cidadezinha do sertão onde a Educação brilhava, sendo polo de referência
em todo o Estado da Bahia. Por ali circulavam estudantes vindos de muitas
cidades, às vezes distantes, que buscavam seu diploma de professor primário.
Que cursavam o Científico, na intenção de prestar um vestibular na capital e
ter uma profissão de médico, engenheiro, advogado... e tantas outras sonhadas
então. Muitas famílias se mudavam para estar perto dos seus filhos estudantes,
alugando casas para formar pensionatos. E os sonhos se espalhavam! A cidade das
tradições, o Baronato remanescente do Império, era então uma cidade de jovens guerreiros
que buscavam um futuro melhor. E a Vila Nova do Príncipe era um ninho
acolhedor! Seus moradores casuais acabavam apaixonando-se pela sua água e
clima, pelos seus moradores... e tornavam-se caetiteenses de corpo e alma. Como
o são até hoje.
Com o zunido dos carros de bois, o gosto das tangerinas da
feira, o sabor açucarado do mel de engenho e suas rapaduras maravilhosas, o
suco da manga madura escorrendo pelo canto da boca, as negras e deliciosas
jabuticabas buscadas nos pés, as melancias com sua vermelhidão deliciosa, o
quebrar dos coquinhos Licuri com uma pedra ou o colar deles sequinhos,
comprados na feira, a magia dos pés de umbu, as mangabas colhidas na Passagem
da Pedra... são recordações saborosas que só acrescentam poesia e alegria às
nossas reminiscências! Lembranças de tudo que valeu a pena ter vivido!
Acréscimos à nossa história, histórias para contar, contos a escrever, escritas
que dividimos com os amigos que sentem a mesma saudade que nós.
Não é saudosismo, pois não estamos presos na gaiola do
passado. É saudade! É lembrança! É saber que valeu a pena cada noite mal
dormida estudando. É ter a certeza de que estivemos no caminho certo, que
tivemos uma família que nos colocou na estrada do bem, que namoramos no tempo
de namorar e fomos muito felizes. E de que fizemos amizades que, tanto tempo
depois, ainda conservamos e nos juntamos para celebrar.
E estas lembranças tornam-nos a vida mais feliz. Podemos
dividi-las com filhos e netos. Podemos dividi-las com o Mundo inteiro! Podemos
até eterniza-las em livros que, quando voltarmos para o nosso verdadeiro lar,
nos farão eternos, imortais!
Luzmar Oliveira
Salvador, 05ago18

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