SÓ QUEM
VIVEU ISSO SABE O QUE SIGNIFICA
Brincar na chuva é ainda melhor que dançar na
chuva. Se bem que o primeiro engloba o segundo, pois nas brincadeiras da minha
infância sempre havia cantoria e dança.
Só quem viveu isso sabe o que significa.
Enquanto hoje o dia chuvoso prende as pessoas sob o teto e em frente a uma
telinha ou celular... Naqueles tempos nos soltava ainda mais! Claro que não
falo de tempestade e trovoada. Mas de uma chuva moderada ou fina. Daquelas que
formam poças dagua e enxurrada. Daquelas em que brincar de pega-pega, jogar
bola, chutar a água empoçada, fazer barquinhos e solta-los na correnteza, e
fazer tapagem ao lado das calçadas, era sinônimo de vida e alegria.
Caetité é uma cidade enladeirada. Sobe
teimosamente serra acima. Eu morei na parte baixa, entrada da cidade, Rua Dois
de Julho. Naquele tempo os bairros (bairros?) mais distante dali eram onde fica
o Instituto de Educação Anísio Teixeira e o Jatobá, hoje Parque das Árvores. E
ao cair o “toró”, as água desciam a Rua Barão e a Avenida Santana indo desaguar
naquele riacho que existe abaixo da Dois de Julho. Portanto, a enxurrada
engrossava e se despencava pela minha rua, tornando-a um verdadeiro rio de
águas turvas. Serenada a chuva, saíamos felizes para represar as águas com pedras
e areia. Dobrávamos folhas de revistas ou cadernos velhos e, na nossa
imaginação, aqueles barquinhos se tornavam transatlânticos maravilhosos!
E ali estava toda a meninada da rua: Fiim, eu,
Luiz Tampinha, Cleide, Janete, Gilson, Flávio, Márcio e mais meio mundo de
crianças felizes. A diversão estava garantida por horas. E o engraçado é que
ninguém adoecia... Todos sadios e felizes!
De repente alguém dizia que o riacho sob a
ponte estava super cheio e descíamos a rua correndo para apreciar o espetáculo.
A essa altura amigos dos outros cantos da cidade também nos acompanhavam e
aquelas águas caudalosas, aos nossos olhos, se transformavam num grande rio,
tipo mesmo o Amazonas. Aquela visão esplendorosa nos levava ao delírio! Que
felicidade! Que coisa mais bonita de se ver!
E era nessa simplicidade que vivíamos. Era
assim a nossa infância que nos soltava aos quatro cantos daquela pequena
enseada de paz do sertão baiano. Uma vida rica de experiências e entusiasmo.
Com ruas estreitas e de pouco movimento, tínhamos a liberdade de ser e fazer
tudo que competia às crianças ou jovens. Não tínhamos sinal de televisão e
muito menos telefone, que só veio no final da década de sessenta e a TV na de
setenta. Nossos jogos eram os de tabuleiro, como dama, pega vareta, dominó e
similares. Ou o tico-tico, triângulo, birosca e outros tantos.
Meninas ainda brincavam de casinha e bonecas.
Meninos de bola, carrinho e caubói. Cavalos feitos com o cabo da vassoura e
meias velhas. Carros de caixão e rolimãs. Com dois pedaços de madeira e dois
rolamentos usados, se fazia uma maravilhosa patinete para descer a Dois de
Julho disparado! E com duas latas de salsicha vazias e um pedaço de barbante
fabricávamos nosso próprio telefone. Um pedaço de arame grosso com a ponta
fina, e tínhamos o instrumento para jogar triangulo na areia molhada.
Bolinhas de gude, bolinhas de meias velhas...
tudo isso era riqueza! Eram brinquedos fantásticos! Como disse o sábio francês,
nada se perde, nada se cria: tudo se transforma! E transformávamos mesmo em
diversão garantida!
Novelas? Só no rádio ou nas revistas. Essas
segundas eram as famosas Fotonovelas. Ah! E havia os gibis também.
Cinema, nós tínhamos dois! E sem reprises: um
filme novo a cada dia. Êta coisa boa!
Sem sanduiches, sem refrigerantes fáceis, sem
comida congelada, sem fast-foods... Era tudo feito em casa, e todos os dias!
Pão quente, café feito no coador, leite tirado do ubre da vaca, galinha de
quintal, frutas fresquinhas...
Só quem viveu isso sabe o que significa!
E com todos os banhos de mangueira, com todas
as frutas comidas embaixo (ou em cima) das árvores, com todas as roupas e
cabelos ensopados pela chuva, estamos aqui para lhes contar a nossa história!
Para lhes narrar o que era simples e bom e que nos fez fortes e felizes. Para dizer
que tomamos banho de rio, que não sabíamos o que era cloro, o que era carne com
hormônio, verduras orgânicas, carne de soja e outras modernidades esdrúxulas!
Nossa geração não sobreviveu: Nossa geração
viveu! VIVEU com todas as letras maiúsculas! Conheceu a vida na sola dos pés
descalços e na palma das mãos que jogavam peteca, baleado e bolinha de gude!
E com toda essa liberdade, aprendemos a ser
responsáveis, obedientes, disciplinados. Pois nossos pais se preocupavam de
verdade conosco e nos educavam. E nossos professores eram respeitados. Eles nos
ensinavam e nós aprendíamos. Eles mandavam e nós obedecíamos. E isso não era
abuso: era educação!
Só quem viveu isso sabe o que significa!
Luzmar Oliveira
07.09.15

Nenhum comentário:
Postar um comentário