Elis Regina - FASCINAÇÃO
domingo, 18 de maio de 2014
E HOUVE UMA ÉPOCA EM QUE...
E HOUVE UMA ÉPOCA EM QUE...
Houve uma época em que era colocada uma tela de cinema na Praça da Catedral, em frente ao Clube Social, e nela eram projetados filmes religiosos ou documentários. Eu era ainda uma criança, mas um deles ficou em minha memória, ou, pelo menos, uma parte dele. Lembro-me que era sobre uma doença epidêmica, a febre amarela. Mostrava a picada do mosquito e a garota se coçando. Explicava que, quando o mosquito picava, ato contínuo, também defecava. E, ao passar a mão para espanta-lo e se coçar, a pessoa conduzia suas fezes para o buraco da picada, contaminando-se. Incrível como jamais a cena se apagou...
Os anos se passaram. Não há mais telinha na praça, não há mais as crianças daquela época. Crescemos. E até envelhecemos um pouco (só um pouco!). Mas o que aconteceu não sai da lembrança. Há uma espécie de arquivo que, revisitado, nos mostra cada etapa da nossa vida e dos lugares por onde passamos. Como um vídeo tape. E somos capazes de descrever os tênis que usávamos em nossas aulas de Educação Física. Sabemos de cor os hinos que cantávamos no hasteamento da Bandeira do Brasil. Repetimos palavras e frases inteiras dos discursos do Professor Hélio Negreiros, considerado por anos o orador oficial da nossa cidade. E as músicas e hinos religiosos das missas e procissões.
Terminei o curso Normal no IEAT. Houve missa de Ação de Graça na Catedral e um Culto na Igreja Protestante Presbiteriana. O Pastor Jaime Wright, um norte americano alto e super inteligente, fez uma pregação que se iniciou com ele dedilhando as cordas de um violão. Após uns poucos acordes, disse: “Um dia eu quis aprender a tocar violão. Comecei assim... mas senti dificuldades e não insisti. Parei. Desisti. E assim é a vida. Se começamos a fazer algo e desistimos, não chegaremos a parte alguma....” E continuou seu sermão nos incentivando a continuar nosso caminho como professores que agora éramos. E mais uma vez aquelas palavras ficaram gravadas em minha mente. Não que ele tivesse usado exatamente as escrevi acima, mas o sentido era esse.
Quantos de nós passamos por situações idênticas e arquivamos esses momentos? São lembranças de uma vida bem vivida e que deixou marcas em nossa memória, como a idade deixa no corpo.
Jamais nos esquecemos de como se faz um barquinho de papel, de como se joga “tico-tico” ou peteca. De como se anda de bicicleta ou patinete. Se pegamos numa gude, com certeza sabemos o que fazer com ela. E se fecharmos os olhos, ainda veremos nitidamente as pedras que calçavam as ruas da nossa infância. Talvez até ouçamos a missa dita em latim: “Ora pro nobis”. E se aguçarmos a imaginação e o paladar, sentiremos o gosto das guloseimas que nossas mães faziam tão bem!
E ao pensarmos nisso nos vem um sentimento terno, que nos adoça a boca e o coração. Nos vem as lembranças que nos dizem o quanto fomos felizes e despreocupados. O quanto tivemos de bom, os amigos que conquistamos, os amores que nos fizeram sorrir ou chorar, a família que nos deu o que de melhor poderia ter dado, o que aprendemos numa época em que escola pública era sinônimo de qualidade e que Caetité era sinônimo de cultura e educação!
E tudo que queríamos era ter a mesma sensação do frio do inverno que se avizinha. Do vento gelado do caminho da escola. Das frases em francês de Catuladeira e dona Elzinha ou do inglês de Edelweis ou dona Teodolina. Do português de dona Conceição e Lucia Prisco. E de todas as matemáticas, histórias, geografias, psicologia, didáticas, latins, físicas, químicas, biologias, puericulturas, desenhos, pedagogias, músicas e cantos orfeônicos, economias domésticas e tantas outras disciplinas e mestres igualmente competentes!
E agora restam-nos as doces e suaves lembranças e essa saudade autêntica! A saudade dos nossos pais e irmãos. Dos que se foram. De tudo que passou e de tudo que passamos. E a certeza de que sempre saberemos que valeu a pena!
Luzmar Oliveira
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