Semana
Santa em Caetité
No Domingo de Ramos acompanhávamos a procissão com uma palhinha
de coqueiro. Era lindo! Segurávamos com orgulho e carinho, como se levássemos
um troféu. E desfilávamos pelas ruas cantando os hinos de louvores.
Na Catedral, a missa das nove era super concorrida. A Missa de
Ramos.
Na quinta feira, noite da Última Ceia de Cristo com os
apóstolos, havia a cerimônia do “Lava Pés”. Segundo a Bíblia, era costume da
época, ao receber uma visita, o anfitrião beijar o convidado e oferecer um
servo para lavar-lhe os pés e ungi-los com óleos. E assim o padre fazia naquela
missa da véspera da crucificação. Escolhia-se um grupo de homens que teriam
seus pés lavados e ungidos com os “Santos Óleos”, tal qual fizera o Cristo na
sua última ceia com seus apóstolos.
Na Semana Santa cobriam-se as imagens com um pano roxo.
Acredita-se que aquilo significava o luto e que, ao cobrir as imagens,
simbolizava-se, assim, a tristeza pelos sofrimentos de Cristo. As mesmas eram
descobertas após a ressurreição de Jesus. Mas aquilo realmente dava uma
depressão tão grande... e note-se que a mesma se acentuava com a procissão
dupla, quando uma levava a imagem de Senhor dos Passos e a outra a de Nossa
Senhora das Dores, sendo que a ultima nos passava realmente uma tristeza
infinda. Alguém colocava em sua mão direita um lencinho. Da sua face pareciam
descer lágrimas. E as duas se encontravam na esquina do Palácio Episcopal onde
o Bispo ou o Padre Homero faziam a pregação que, incontestavelmente, me fazia
chorar.
Lembro-me ainda da Verônica, aquele personagem bíblico que
enxugou o rosto de Jesus com uma toalha na sexta estação da Via Crucis (Via
Sacra) e cantava um hino em latim: “O vos omnes qui transitis per viam:
attendite et videte si est dolor sicut dolor meus”. Muitas vezes representada pela minha colega
Lídia, ou por Marlene (de Dácio) ou ainda Marlene Vilasboas.
Na sexta feira pela manhã acompanhávamos a “Via Crucis” até um
dos Cruzeiros da Cidade. Normalmente íamos para o que fica no morro atrás do
IEAT. Mas havia também até a Igrejinha de Bruno Silva, lá nos Montes. Era uma
subida íngreme e acidentada. Mas, cheios de fé, os católicos não reclamavam nem
do sol, nem da poeira e nem do cansaço.
À noite, na praça, a encenação do crucificamento de Jesus e a
procissão do Senhor Morto. Toda a cidade acompanhava com velas protegidas por
armação de madeira forrada com papel seda imitando uma lanterna. E o Corpo de
Cristo ficava, depois, exposto na igreja para visitação.
O que mais me espanta é lembrar que, naquela época, os adultos
nos obrigavam a beijar os pés das imagens. Tanto os do Senhor dos Passos como a
do Senhor Morto... aquilo era uma tortura, um ato de terror! E nos trazia medo,
pavor, pesadelos.
E finalmente vinha o Sábado de Aleluia! A Ressureição de Cristo.
E as queimas dos Judas Iscariotes. Em vários pontos da cidade havia pessoas que
se preparavam para isso e faziam a algazarra com humor e beleza. Construía-se
um boneco com roupas velhas, bombas e outros fogos. Antes da queima, havia o
famoso “Testamento”. Esse sim era divertido! “E para Fulano de Tal, de canela
fina e dura, deixo minha bota furada, e a minha dentadura” e assim por diante.
Na Rua 2 de Julho tínhamos nosso próprio Judas feito por Juraci Gomes, filho de
Seu Auto e dona Tiana. E a meninada se juntava nas imediações do Jenipapeiro do
Seu Frederico para, com gritos e gargalhadas, ver o fim do boneco de trapos.
E por último, vinha o delicioso Domingo de Páscoa. Onde nos
alegrávamos com chocolates e doces! Após as limitações alimentícias da Quaresma
e o famoso Jejum da Sexta Feira Santa, nada melhor que chocolate e muita
fartura! E um bom vinho!
Havia a crença de que não se devia comer carne na Semana Santa,
pois a mesma simbolizava o Corpo de Cristo. Algumas pessoas não faziam nada
além da comida na Sexta Feira da Paixão: Não varriam casa, não ouviam música,
não comiam nada doce e sequer corriam. Tudo era pecado! E ainda faziam visitas
aos seus mortos no cemitério. Lembro-me que, na volta, não podíamos descer a
ladeira correndo, pois, se o fizéssemos, estaríamos pisando no corpo de Cristo.
Que loucura!
Mas essa era a nossa cultura à época. Eram os famosos tabus que
nos impunham as religiões herdadas dos europeus. E foi assim por muitos e
muitos séculos... até que os tempos modernos perdoaram alguns desses pecados.
Quem viveu naqueles tempos há de se lembrar de mais e mais
causos, histórias e eventos. De tudo que fazíamos para acompanhar nossas
famílias e amigos que cultuavam crenças e preconceitos, mas também tinham fé na
sua religião, nos seus pastores e cumpriam os ritos herdados de outras
gerações. Das irmandades que participavam das missas e procissões com suas
roupas brancas e fitas azuis ou vermelhas. Outros com capas. Da matraca com seu
som ritmado. Dos incensos nos turíbulos de prata. Das cantorias. E do nosso
amado Padre Osvaldo Magalhães no comando das procissões.
E o que hoje é lembrança, ontem foi a realidade de uma geração
que construiu sua fé baseada no medo do pecado, mas também na certeza de um
Salvador que veio nos ensinar o perdão, a fraternidade, o amor incondicional!
Que nos deixou um legado de esperança no futuro e a certeza da ressurreição ou
reencarnação!
Luzmar Oliveira
http://www.sudoestebahia.com/noticias/8170-2014/04/17/caetite-pequenina-mas-ilustre-%E2%80%93-por-luzmar-oliveira-

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