“ANARRIÊ”: VOLTAR AOS SEUS LUGARES
O frio fazia doer os ossos! Japonas, casacos,
meias... e lá íamos nós.
Por volta de quase meio dia o tempo melhorava e
a temperatura subia um pouquinho. Era hora de voltar para casa e fazer parte da
mesa onde a família se reunia para um almoço bem sertanejo e quentinho. O pai,
à cabeceira, e nós todos em volta devorando aquela carne do sol, arroz, feijão,
aipim e verduras. Eu não comia verduras, detestava! E nunca me obrigaram a
gostar. Mas aipim com carne do sol era bom demais! E os doces feitos no tacho
no fogão de lenha? Nossa! Eram de comer rezando!
À tarde sempre havia algo para estudar e depois
dar uma voltinha pelas ruas para bater papo com os amigos. Antes, porém a gente
tirava aquele fone pesado do gancho e a voz de Lourdinha ou Neusa atendia do
outro lado e, após um dedo de prosa (às vezes todos os dedos e mais alguns...)
a gente dava o número e era transferida a ligação. Ainda me lembro do de Tania
Silveira: 1030. O meu era 1027. Quem diria que hoje teríamos as super
facilidades do celular e skype? Pois é, isso é fantástico!
Mas o bom nesta época mesmo era o São João.
Começou junho, a alegria aumentou! Vinha Santo Antônio, São João e São Pedro. E
haja pipocas, milho verde, canjica, mingau, pamonha, quentão e toda sorte de
chiringas, biscoitos, chimangos e bolos variados. Quentão e batida de limão. ETA
época maravilhosa, a melhor festa do ano.
Tinha o clube da praça, a Associação Cultural
onde dançávamos as famosas quadrilhas: “Anarriê!” “Olha a chuva!” “Marimbondo na
estrada!” E com roupas caipiras, vivíamos aquele sonho colorido e feliz!
Melhor? Tinha não!
Quando nosso pai acendia a fogueira na porta de
casa, estava decretada a alegria e a queima de fogos que coloriam a escuridão
das noites de inverno daquela cidade pequena e aconchegante. Estava decretado
que todos podiam entrar na casa de todos e comer e beber à vontade, pois a lei
era a da amizade, fraternidade e equidade. Aquela era realmente uma festa
popular no sentido de todos participarem sem medo e sem egoísmo. O bolo de
milho em casa de um, o quentão em casa de outro e lá íamos todos com a alma
aberta e um baita sorriso no rosto.
Meu pai vibrava com os foguetes de rabo que
íamos buscar, na véspera, em Ibiassucê. Minha mãe com a leitoa assada e os frangos
douradinhos e cheirosos. Eu e meus irmãos nos achegávamos ao redor da fogueira
e, no dia seguinte, ainda cutucávamos as cinzas para enterrar as batatas doces
que nos deliciavam no café da manhã, crocantes de tão assadas naquele borralho.
E a festa continuava, pois estávamos de férias da escola e a ordem era curtir
muito e ser ainda mais feliz!
Hoje são recordações que nos trazem lembranças e saudades
de quem partiu antes de nós e de quem ainda está aqui... alguns mais perto e
outros mais longe. Mas numa era onde a comunicação tem a velocidade da luz,
ainda conseguimos nos unir e comemorar, de alguma forma, essa ideia de São
João, de festa caipira, de simplicidade e amor.
Somos hoje pessoas vividas e multiplicadas.
Vividas porque passamos pelos caminhos que escolhemos ou pelos quais a vida nos
levou. E chegamos a um patamar onde temos a autoridade da experiência e a
vantagem de havermos vivido momentos que nos tornaram o que hoje somos. E
multiplicadas porque espalhamos por este planeta os que descenderam, direta ou
indiretamente, de nós. Espalhamos ideias e conhecimentos e também erros e
acertos. Somos o fruto daquilo que plantamos. Somos o que construímos. E somos
felizes, pois conseguimos atravessar desertos, mares e rios e saímos do outro
lado, mais sábios e melhores. E amanhã, quando tivermos que viajar de volta à
pátria de origem, nossa bagagem final caberá apenas no bornal da alma que é eterna:
“Anarriê!” Significa “voltar aos seus lugares”. E um dia deveremos fazê-lo. E
junto levaremos a certeza de que vivemos e fomos o melhor que pudemos ser!
Luzmar Oliveira
08jun13

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