COMO É BOM LEMBRAR!
Hoje comi, no desjejum, abacate batido com um pouco de leite e
açúcar. Bem grosso e às colheradas como fazia ainda menina ou adolescente em
casa. Uma delícia.
No quintal da minha casa, em Caetité, tem um enorme abacateiro
plantado pelo meu cunhado Pame, assim como o coqueiro, a amendoeira...
Pame era assim. Nos seus oitenta anos bem vividos, tudo que
plantou deu certo. Começou com o amor no coração da minha irmã Inis, que é
bonito demais. Viveram quarenta e nove anos casados, mas some-se a isso namoro
e noivado... mais de meio século de amor e felicidade. Depois os filhos, cinco
criaturas lindas por dentro e por fora, que lhes deram netos iguais. Além
desses amores, os dos sogros, cunhados e amigos. Mas, voltando às plantas,
legou ao mundo um belíssimo jardim e pomar em sua casa. Fez jus à profecia de
Pero Vaz de Caminha: “Em se plantando tudo dá”!
Pois é... relendo a crônica que escrevi falando do fogão de
lenha, veio a saudade. Aliás, como essa “senhora” insiste em aparecer! Deve ser
a chegada do outono ao Planeta que me lembra que ele já se instalou em minha
vida. Outono, estação das mudanças. As folhas amarelam como os cabelos
embranquecem. E o tempo se torna restos de verão misturados a sinais de
inverno. É assim aqui, pois na Bahia, na verdade, só há duas estações
definidas. Mas na vida da gente... bem, não vim aqui pra falar de achaques e
mazelas. Perdoem-me o escorregão.
Vim falar de saudade, mas da saudade bonita e que traz
felicidade.
Como a saudade de Caetité, aquela terra acolhedora, de agua boa,
de temperatura amena da minha velha infância.
Uma Caetité que escreveu sua própria história, marcando nossos
corações com recordações sadias e amizades firmes. Caetité das ladeiras e ruas
calçadas de pedras irregulares, depois trocadas pelos paralelepípedos até
chegarem ao asfalto ebúrneo...
Caetité que tem uma igreja que nos envaidece pela sua beleza
externa, suas magníficas pinturas internas e imagens perfeitas!
Esta semana Graça Borges me trouxe de volta a do Senhor dos
Passos, figura marcante da minha infância. Na “Esquina do Bispo” as duas
procissões se encontravam na sexta feira da Paixão: Uma levando Senhor dos
Passos e a outra trazendo Nossa Senhora das Dores, com lágrimas e um lencinho
de linho na mão (que uma alma generosa ali colocou). Nunca vi cena mais triste
e emocionante! E lá estava o Padre Homero, homem gordo, semblante sereno e
orador incrível! E nos falava daquele encontro doloroso a caminho do calvário.
Da dor daquela Mãe Santíssima com o Filho muito amado. E lágrimas desciam pelas
faces de quem ouvia... Padre, depois Monsenhor Homero... como eu gostava da sua
maneira de contar aquela história! Como emocionava meu pequeno coração!
E vinha o sábado de aleluia com seus “Judas Iscariotis”... Mas a
parte gostosa mesmo era o Judas de Juraci Gomes, lá na Dois de Julho. Eta
menino criativo! Adorava suas apresentações e não perdia nenhuma! Ele fazia
Judas, fazia cineminha... mil coisas! E dona Sebastiana e “Seo” Auto sempre nos
recebendo com alegria!
E o “Domingo de Páscoa” com a família reunida! Chocolates,
doces, comida farta... era o ápice, pois ai se comprovava a “vida eterna”, a
imortalidade da alma! Coisa que só vim, realmente, entender, quando comecei a
estudar o espiritismo de Kardec.
Hoje é só saudade. Mas uma saudade sadia, cheia de fortes
lembranças que nos impelem pra frente, para rever os velhos e bons amigos
daquela época. Uma saudade construtiva que nos leva a escrever sobre,
recontando “causos”, citando nomes e propiciando aos amigos viagens no tempo e
oportunidade de deixarem aqui registrados comentários e comentários, registros
de coisas que, aparentemente, ficaram lá atrás!
“Hoje meus domingos são doces recordações...”, diz o rei Roberto
Carlos e mexe com nossos sentimentos, revirando álbuns, figurinhas tão bem
guardadas nos porões das lembranças do passado. Hoje temos outros rumos, outras
pessoas, famílias que construímos com alguém com quem compartilhamos nossas
vidas. Sonhos realizados ou esquecidos... ou adiados...
Um outro momento onde nossos filhos e netos constroem suas
recordações futuras. Papeis novos: de filhos e netos de ontem a pais e avós de
hoje.
Mas donos de uma bagagem riquíssima, onde impera o amor, a
coragem, a dignidade adquiridos numa época feliz, em um lugar bendito, com
muita vontade de que tudo de certo e com a certeza de que vivemos o melhor de
todos os tempos naquela maravilha chamada Caetité!
Luzmar Oliveira
30mar13
(Foto de Luiz Benevides Benevides)

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