E POR FALAR EM SAUDADES...
Nasci na casa atras da árvore. Foi demolida para abrir a Av.Santana
Às vezes sinto uma vontade louca de voltar no tempo. Ir para o
tempo das mangas maduras do Periperi. Andar pela estrada de terra, abrir a
cancela e me fartar de manga rosa, manga espada... e sorrir despreocupada.
Tempo de nenhuma conta a pagar. Sem transito intenso, sem
engarrafamentos, sem chefe, sem patrão... sem fila de supermercado e banco.
Preocupação? Só passar de ano! Depois ir curtir um pouco de
SAMPA na carona do cunhado ou do irmão. Curtir férias e namorar em Caculé, sob
a proteção de Oneide. Voltar com a mala cheia de roupas novas pagas pela minha
mãe... nenhum centavo a dever!
Comprar revistas em Gessi ou “Seo” Otacílio e ler até tarde! “Livros
a mancheia”, como diria o Poeta dos Escravos!
Às vezes sinto uma vontade danada de ser adolescente de novo,
mas não descobriram ainda uma fórmula pra isso... e tenho que assumir minhas
burradas, meus débitos e correr atras dos consertos, compras e remédios.
A saúde mudou, claro! O corpo ta envelhecendo e ficando cada vez
mais usado. Já não posso pensar nas aulas de Abelardo e dona Rica (não é rica
de dindin, é Rica com R de cara, de fora...), pois não corro, não pulo e nem
posso sonhar em fazer cem abdominais...
Bicicleta? Em pensar! E andei tanto em Caetité e Caculé...
E a vontade de subir nos pés de jabuticaba da casa de “seo”
Zuza, aqueles ali do Mulungu... uma delícia! Um dia Cleide caiu lá de cima e
furou o pé... foi sangue pra todo lado! E a gente morrendo de medo do diabo da
garrafa descobrir e mandar o velho Zuza nos pegar e prender lá também.
Ah! Mas tem hora que a vontade de tomar sorvete em Dominguinhos
é grande demais! Fico louca de saudade! Hum... era mais que gostoso! Maior que
isso só o desejo dos doces da Bela Vista e da Campineira. Aqueles “cajus” enfiados
num brinquedo... nossa! E as geleinhas coloridas? Balas pra todo gosto! Maria
Mole entre dois biscoitos, pipoca doce no saco vermelho, pirulitos Zorro...
caramelos de coco no papel dourado... Diamante Negro e Sonho de Valsa... isso já é
demais para minhas lembranças e saudades! É até covardia!
Juro que sonho com o inventor da máquina do tempo e peço a Deus
para me apresentar a ele! É meu delírio! Reencontrar todos meus amigos e cantar
ciranda, brincar de “cala a boca e não se mexa”, pedra lisa, picula, telefone,
demarré, peteca, baleado, tico-tico, chicotinho queimado e ainda torcer pelos
times de futebol lá no campinho com Celina e Ana Helena no meio dos meninos,
pegando no gol!
Quero cantar o Hino do Clube da Bondade... quero até aprender francês
e latim, assistir aulas de dona Eponina e professor Hieron. Ver Catuladeira de
terno branco impecável e professor Hélio nos chamando de “Maria”. Ah! Como eu
quero!
Hoje to saudosista e cheia de recordações.
Quero ouvir meu pai me mandando apagar a luz por ser muito
tarde...
Quero ouvir as recomendações da minha mãe antes das viagens.
Quero ouvir a buzina do caminhão de Fiim tocando “Namoradinha de
um amigo meu”...
Quero ir a uma festa no Barauna, quero chupar tangerina na
feira, quero comer coquinhos quebrados com a pedra, quero os coco-queimados da Rua
Saldanha, quero pedir “bença vô”, ouvir Ieiê dizer “Vá a merda!”, ouvir as
musicas de Waldik, os sinos da catedral, dizer que “Tõe Piscucim engoliu
sonrisal”, me esconder de Pequena doida, beijar o anel do bispo, ganhar
santinho do padre, gritar “faixa azul”, comer pipoca na praça e jogar baleado
no beco.
Quero me sentar num banco da praça e contar “causos” com os amigos.
Ouvir as piadas de Lelinho e rir muito. Quero assistir o filme Al Di La no
cinema de dona Maria Pinho. Ouvir o serviço de alto falantes dos circos e
parques mambembes...
Quero declamar uma poesia na janela da casa de dona Eponina em
pleno Dois de Julho! Ou na sacada do Clube Social da praça.
Quero participar dos desfiles de Sete de Setembro com a farda impecável!
Ou das alegorias da Primavera...
Quero, quero, quero... é tanta coisa que quero e que não posso
mais ter! Mas tenho as lembranças bem vivas de pessoas, lugares e situações que
foram bonitas demais e marcaram para sempre minha vida e a de muitos amigos.
Hoje é muito tempo depois... mas um dia foi agora! E vivi, e
vivemos, e plantamos sementes que colhemos com orgulho e alegria.
Ficou uma amizade entre nós, uma cumplicidade que resiste a
tudo, uma fidelidade às origens e ao que ali vivemos e aprendemos.
Hoje, tantos anos depois, deixo aqui registrada a minha saudade,
a minha vontade de reviver cada momento, cada instante. Impossível faze-lo. Mas
possível lembrar e ser feliz por um dia haver realizado coisas, conquistado
amigos, vivido situações, curtido amores, degustado delícias de uma terra que
jamais sairá do meu coração!
Luzmar Oliveira.

Lú.
ResponderExcluirTudo que vc. relata, nos faz lembrar da nossa infância .Somente as pessoas que tiveram o privilégio de viver este tempo, sabem lhe compreender. Mais uma vez está de Parabéns.
Dão