CERTEZAS DE UMA GERAÇÃO FELIZ
Naqueles tempos andávamos
pelo quintal lá de casa como bandeirantes desbravadores dos sertões. Tínhamos
pouco mais de sete ou oito anos e recebíamos nossas primeiras lições de
História do Brasil. Com Ana Helena e Celina Vasconcelos, me embrenhava pelas bananeiras
e pequenos riachos e a vida era só alegria e felicidade. Despreocupadas,
buscávamos naquela aventura as emoções que só crianças sabem sentir. Quando nos
deparávamos com uma bananeira derrubada pelo meu pai que lhe havia cortado o
cacho, fazíamos de conta que era alguém, um inimigo, e a enterrávamos (ao nosso
modo, é claro). Ali estavam as heroínas da nossa infância: nós mesmas. E
aqueles momentos jamais se apagaram ou se apagarão da nossa memória e, juntados
a tantos outros, nos fez amigas para sempre.
Aquele quintal era uma
enorme chácara dentro da cidade. Ali havia bananeiras em quantidade e
diversidade. Mangueiras, laranjeiras, limeiras, mamoeiros, pitangueiras,
goiabeiras, araçazeiros, marmeleiro e outras frutas mais. Latadas de Chuchus,
hortaliças em geral, taiobas, copos de leite, batateiras, cana de açúcar,
coqueiros e abacateiro. Era o paraíso de qualquer criança. E era quase comum
que nos fundos das casas houvesse algo parecido. Até cafezal! E ainda
participava da colheita.
Numa espécie de quiosque
rústico, havia um fogão a lenha onde se torrava o café numa bola de ferro, um
forno redondo para assar bolos e chiringas e um pilão grande de madeira. Nesse
último se pilava o café e também a paçoca de coco com rapadura que era uma
delícia!
Só quem viveu no interior
sabe o que é isso. Crianças livres que tomavam banho de mangueira no quintal,
que faziam “tapagens” após as chuvas, que soltavam barcos de papel e que
caçavam tanajuras.
Quem foi criança de cidade
pequena sabe o que é subir no muro e na árvores, tomar banho de rio e quebrar
coco licuri com uma pedra. Sabe o que é ir atrás do palhaço da perna de pau
quando o circo chegava na cidade: “E o palhaço quem é? É ladrão de mulher!”
Sabe o que é jogar “tico
tico” com pedrinhas ou com as bolotas da “saboneteira” da praça, em frente à
casa do Padre Osvaldo. Sabe como é que se faz picolé “abafa banca”, garapa de
limão e beiju enrolado com manteiga de garrafa.
Como era gostoso ir tirar
jenipapo em frente à casa do ‘Seo’ Frederico na Dois de Julho e ainda descer
aquela rua de bicicleta e de braços abertos ou de carrinho de rolimã que Fiim
fazia tão bem.
E, aos domingos, ir à
missa das nove junto com todas as crianças da cidade e ainda ganhar santinhos
do padre. Beijar o anel do bispo. E receber a hóstia consagrada após nos
confessarmos no sábado à tarde. Aprender o catecismo com Tuninha. E correr em
disparada depois de bater na porta e gritar “faixa azul”!
Hum... mas naquele tempo o
dia de domingo era também o dia da macarronada, galinha assada e pudim de
leite. Minhas irmãs caprichavam no “frango recheado” e eu adorava! Mas nunca
gostei de macarrão e minha mãe mandava fazer arroz pra mim. Era dia de alegria
e família!
À tardinha íamos para a
praça. Vestíamos roupa de festa, sapatos e meias, bolsa e uma boneca no colo.
Eta que era bonito demais! E os meninos levavam seus carrinhos. Tinha uma
vizinha, Anita (Ni, filha de ‘Seo” Everaldo) que tinha tantas bonecas que nem
sabia qual escolher e, às vezes, emprestava para uma amiguinha que não tinha
nenhuma. Na bolsa, um monte de balas doces e outras guloseimas.
Às vezes a gente ia para a
matinê do Cine Vitória.
Mas crescemos e ficou a
saudade, a lembrança, o aprendizado. Ficou a marca de uma vida que hoje não se
vê em lugar nenhum. Uma vida simples e provinciana, sem TV, sem computador, sem
games, sem individualismo. Éramos crianças que tropeçavam e caiam e as
raladuras eram curadas com mercúrio cromo e muito carinho. Crianças que comiam
a fruta tirada do pé, o coco quebrado na calçada, corríam na chuva e no mato,
andávam descalças e de peito nu. Púnhamos e recebíamos apelidos. Tomávamos
banho de rio e lagoa. E nunca nada disso nos fez mal ou traumatizou. Ao
contrário: nos fez fortes, inteligentes, amigos e camaradas pela vida afora.
Não havia diferença entre preto e branco, entre pobre e rico ou bonito e feio.
Éramos todos lindos, ricos de alegria e saúde e iguais nas diferenças que nunca
vimos e nem sentimos.
Talvez por isso hoje
conseguimos nos reunir e nos divertir ainda como aqueles seres da antiga Caetité,
das escolas públicas e das brincadeiras no quintal. Somos amigos de toda vida
ou de vida toda. E carregamos, em partes iguais, a saudade e as lembranças do
maravilhoso tempo dos umbus e das jabuticabas de Caetité. E trazemos no coração
a certeza de que existimos ali e aqui. E somos remanescentes de uma geração
muito feliz.
(Fotos de Luiz Benevides)
Luzmar Oliveira


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